O Estado português vai doar (porque é Natal e já me cansam os verbos financeiros como "injectar") 500 milhões de euros ao BPN. Depois de ninguém se ter chegado à frente para comprar os despojos deste banco. Porque a alternativa é pior, por causa do efeito de contágio, porque estamos sob o olhar atento da Europa...
Miguel Sousa Tavares dizia ainda há pouco que a falência do BPN é inevitável, mais tarde ou mais cedo. A diferença é que, mais tarde, a factura a pagar será mais elevada. E acrescentou que este Governo errou ao ter medo de agir perante o "regabofe financeiro" que ia na administração do banco.
Para bem do país, espero que esteja enganado.
20 dezembro 2010
08 novembro 2010
O amigo Hu
O que nos vai valendo, a Portugal, é que temos muitos amigos. Podem ser amigos daqueles que ninguém convida para as festas porque os outros meninos não gostam deles mas dá sempre jeito ter amizades destas, com vontade de gastar uns quantos milhões.
Depois da visita bem sucedida, a nível comercial, de Hugo Chávez ao seu comparça José Sócrates, o presidente chinês Hu Jintao veio fazer uma tour pela Europa. Fez acordos, distribuiu milhões, estendeu mãos por onde passou.
E nós, pequeninos e habituados que estamos ao comércio chinês, mais não fizemos que agradecer. Muito obrigadinha Sr. Jintao, pelos milhões que aqui vem depositar, bom regresso e bom trabalho nisso do soft power.
A China está a comprar a sua entrada na Europa. Num momento de grande vulnerabilidade de alguns estados ocidentais, a potência emergente vem criar laços de amizade.
Foram quatro os acordos de cooperação institucional e nove os acordos comerciais celebrados durante a visita. Hu Jintao deixou em Portugal 712 milhões de euros. A China Power Internacional quer entrar na EDP, a Huawei chinesa estabeleceu uma parceria com a PT e o Industrial and Commercial Bank of China quer comprar acções no BCP.
Quanto à dívida soberana, é provável que a China volte a aquirir uns quantos títulos, porque Jintao mostrou-se "disposto a tomar medidas concretas para ajudar Portugal a superar a crise financeira mundial". Fu Ying, vice-ministra dos Negócios Estrangeiros, reforçou a ideia de que a China ajuda os amigos em dificuldade.
Amigos, dá-lhe jeito que assim seja. E a nós, Portugal, também. Porque são amigos daqueles de que ninguém gosta ou convida para as festas mas, quando querem gastar uns milhões, vêm a calhar.
Amigos, dá-lhe jeito que assim seja. E a nós, Portugal, também. Porque são amigos daqueles de que ninguém gosta ou convida para as festas mas, quando querem gastar uns milhões, vêm a calhar.
25 outubro 2010
O amigo José
Agora que os hipermercados já abrem ao Domingo durante todo o dia e que já começa a febre das prendas de Natal, também Hugo Chávez veio fazer umas comprinhas a Portugal.
Veio dar as "duas mãos" ao "amigo José" porque amigo que é amigo está presente nos melhores momentos mas também nos mais difíceis, que é como quem diz, quando dá jeito a Portugal exportar mais uns milhõesitos.
Desta vez, Chávez não se limitou aos Magalhães, esses fantásticos exemplares de computador que quando cai não se estraga e aguenta tudo, até bombardeamentos. Levou casas para habitação social, mais de 12 mil, dois navios asfalteiros e um ferry. "Disseram-me que é um barco bom, bonito e barato. Se é assim, estamos muito interessados". Tudo pela módica quantia de 1100 milhões. E desconfio que, se não tivesse de se ir embora tão cedo ("Vamos, já é tarde. Temos de chegar a Caracas antes que anoiteça"), ainda levava mais umas coisitas. Sei lá, podia apetecer-lhe comprar o mar, para aí. Ou então os meios de comunicação portugueses, já que os "de lá" são "manipuladores sem respeito pela moral e pela ética". Tudo palavras do querido amigo.
Nem é preciso dizer que Sócrates já teve o seu Natal deste ano. E agradeceu várias vezes, não fosse restar alguma dúvida de que está profundamente grato ao parceiro venezuelano. Este Pai Natal também veste vermelho, é igualmente rechonchudo mas não diz "oh oh oh". Diz "no me callo".
04 outubro 2010
Wall Street, Money Never Sleeps... But I almost did
Fui ver o Wall Street, Money Never Sleeps. Há uns meses atrás, não teria apanhado metade do filme. E parece-me que metade dos espectadores não percebeu o jargão financeiro e as operações em que o enredo se baseia.
E pensar que a outra metade captou isso tudo já é ser generosa.
E pensar que a outra metade captou isso tudo já é ser generosa.
Ora bem, eu ainda não vi o primeiro Wall Street, aquele que, dizem, lançou o Gordon Gekko para o universo das melhores personagens de filmes. Mas este Gekko de 2008, redimido dos seus crimes, mas afinal não tão redimido assim, e depois outra vez bonzinho... Não me impressionou muito.
Aliás, todo o filme foi uma decepção e eu que ia com tão grandes expectativas. O Shia LaBeouf é um protagonista pequenino, sempre ali no limbo entre o certo e o errado, mas sem convencer. A Carey Mulligan (gosto muito dela, mas) passa o filme quase todo a chorar uma lágrima silenciosa muito sentida...
E os efeitos entre cenas? Ficou-me um em que peças de dominó caem sucessivamente a metaforizar a queda das acções de muitas empresas.
Eu não sou grande entendida em cinema, mas não gostei muito.
21 setembro 2010
O Comboio de Sócrates
Um bom primeiro-ministro resolve crises. Um grande primeiro-ministro transforma-as em oportunidades. O desespero português é maior: temos um primeiro-ministro que nem resolve crises, nem as transforma em oportunidades para o futuro. José Sócrates ilude as crises. Finge que não existem.
Realmente, de cada vez que vejo o primeiro-ministro a falar dos números do país - ora que afinal até houve crescimento, ora que o défice nem é assim tão mau, ora que Portugal está acima das médias europeias - tenho a sensação de que algo não está certo. Até porque depois outras entidades revelam dados que contradizem as informações oficiais. Pergunto-me se ainda há alguém que acredite nele. O artigo, O Comboio de Sócrates, continua:
O primeiro troço do TGV foi suspenso pelo Governo, devido à crise. Mas pode regressar a qualquer momento, como fantasma. O Governo ainda acredita no Pai Natal. Porque se duvida que nos próximos tempos haja dinheiro para comprar sequer sulipas de madeira para colocar nos carris. Mas o Executivo não acha isso, e o resto da linha do TGV continua a avançar a todo o vapor. Espantoso! O Governo entrou em órbita e não sabe como regressar à Terra.
E eu, francamente, continuo sem perceber porque é que se vai avançar com um troço do TGV que seja, num momento em que é preciso passar a cobrar o preço de medicamentos a pessoas que não podem pagá-los mas precisam deles. Se é preciso ir buscar receitas mexendo em assuntos delicados como o sistema de saúde (já precário em algumas situações), talvez fosse mais sensato não avançar com uma obra que vai deixar o país endividado agora e durante muito tempo.
Toda a realidade lhe é indiferente. A crise económica, a crescente dívida pública, o atrofiante desemprego são, para Sócrates, uma maçada. Não tem interesse em saber o que se passa no mundo, e é por isso que pensa que o TGV chegará a andar um dia destes.
Aqui parece-me que Sócrates até tem interesse em ver o que se passa por aí, mas faz uma leitura tão desajustada da realidade que continua a defender estes projectos megalómanos.
Ainda que sejam cenários diferentes, um dia acontece-nos o mesmo que à Grécia, que se deparou com uma realidade que os seus governantes andaram a varrer para debaixo do tapete. E entra-nos pela porta o Fundo Monetário Internacional para pôr ordem na casa (seria bom? Seria mau?)
31 julho 2010
The Bucket List
It’s difficult to understand the sum of a person's life. Some say it is measured by the ones we’ve left behind. Some believe it can be measured in faith. Some say by love... Other folks say life has no meaning at all.
Me, I believe that you measure yourself by the people who measure themselves by you.
The Bucket List (2007)
07 julho 2010
04 julho 2010
Violência na época balnear
"Dois homens ficaram ontem feridos com gravidade na sequência de agressões entre dois grupos no interior de um comboio, junto à estação de Oeiras", dizia o Diário de Notícias a 30 de Junho.
Nunca me senti particularmente insegura no comboio da linha de Cascais, mas é um facto que a violência aumenta durante os meses de Verão. Os desocupados resolvem mudar o que fazem durante todo o ano para as praias da linha e, com isso, vêm os conflitos que provocam nos transportes.
No meio destes factos, gostava de destacar a coragem dos revisores, obrigados a lidar com situações em que a insolência de jovens sem pingo de moral os coloca em posições difíceis de gerir. Muitas vezes são os gangues, sim, que levantam problemas. Há umas semanas eram cerca de dez rapazes, não mais de 20 anos. Entraram no comboio sem tshirts, com música alta e cada um levando uma garrafa de bebidas alcoólicas. O que podia ter feito o revisor nesta situação? Pois, não muito. Apenas lhes pediu que se vestissem.
Há que aumentar o policiamento nestas linhas. Não precisa de ser intenso ou regular, apenas o suficiente para estabelecer a certeza da segurança, capaz de dissuadir acções perturbadoras do bom funcionamento desse serviço tão necessário que é o comboio.
28 junho 2010
A Renúncia do Norte
Em tempos de crise o Governo vai retirando da gaveta projectos há muito esquecidos. Procurando fontes de rendimento que permitam salvar o país da lista negra das economias europeias em risco, o executivo tenta acrescentar aos impostos outros encargos, que pesam na carteira dos contribuintes e esticam a corda do lado da população.
Essa corda, não quis o povo do Norte que rebentasse do seu lado e saiu para a rua em protestos contra a implementação de portagens nas vias sem custos para o utilizador (SCUT). Passa a ser taxada a circulação nas vias do Grande Porto, Costa da Prata e Norte Litoral, uma medida que os autarcas da região advogam ser injusta perante os seus níveis inferiores de riqueza e desenvolvimento. Há que aplaudir a capacidade de mobilização do Norte pela defesa dos seus direitos. Na actualidade essa defesa é tão esporádica, que estes protestos trouxeram à memória tempos de maior reivindicação, com o exemplo do “buzinão” de 1994.
De facto, as manifestações foram já capazes de inflamar comentários políticos. Rui Rio advertiu para a possível revolta da região contra o alegado tratamento discriminatório do Governo. Até D. Manuel Clemente, bispo do Porto, veio a público reforçar a ideia de uma revolta iminente. No entanto, parece evidente que seriam necessárias medidas ainda mais austeras para despoletar tal situação (até porque esta já se arrasta desde 2006, quando o projecto-lei foi aprovado).
O clima social acabou por beneficiar o Partido Social Democrata, que soube aproveitar o momento para forçar decisões. O PSD lançou um ultimato ao primeiro-ministro, ao pedir o pagamento de portagens nas restantes SCUT do país ou, em contrapartida, a perda do seu apoio na aprovação do projecto para o Norte. Conseguiu assim colocar no calendário a cobrança em mais quatro vias, surgindo como o herói num jogo de tudo ou nada. Impressiona o Norte que reivindicava igualdade; mas não pesou o impacto da sua exigência junto do Sul (onde se concentram as restantes vias), agora insatisfeito por ser integrado na equação.
Em cima da mesa estão ainda por decidir elementos dessa complexa equação. O pagamento de portagens nas SCUT foi concebido em virtude de um controverso sistema de cobrança que deixa sem margem de escolha muitos utentes destas vias. Entre o pagamento por débito bancário com o actual modelo da Via Verde e a aquisição do dispositivo electrónico de matrícula (DEM) para cobrança posterior com custos de administração acrescidos, os condutores entram num sistema pernicioso pois dificilmente escapam às hipóteses dadas.
Perante a discussão, seria oportuno pensar a simples construção de praças de portagem, o que permitiria até criar alguns postos de trabalho. Mas a raiz do problema está, precisamente, na geografia das vias que não permite tal construção. E este é o desafio político de base de todo o projecto, que originou o rebuscado sistema de pagamento. E o Governo vê-se a braços com a dificuldade de integrar no sistema as excepções ao pagamento – moradores e automobilistas afectos à actividade económica. Trata-se da questão que pode pôr em causa a entrada em vigor da cobrança nas SCUT do Norte na data prevista.
É um assunto polémico que tem ainda muitos quilómetros a percorrer mas está já marcado pela pronúncia do Norte que renunciou à mera aceitação da cobrança nas suas vias. A discussão terá novo ponto de viragem nos próximos dias.
Essa corda, não quis o povo do Norte que rebentasse do seu lado e saiu para a rua em protestos contra a implementação de portagens nas vias sem custos para o utilizador (SCUT). Passa a ser taxada a circulação nas vias do Grande Porto, Costa da Prata e Norte Litoral, uma medida que os autarcas da região advogam ser injusta perante os seus níveis inferiores de riqueza e desenvolvimento. Há que aplaudir a capacidade de mobilização do Norte pela defesa dos seus direitos. Na actualidade essa defesa é tão esporádica, que estes protestos trouxeram à memória tempos de maior reivindicação, com o exemplo do “buzinão” de 1994.
De facto, as manifestações foram já capazes de inflamar comentários políticos. Rui Rio advertiu para a possível revolta da região contra o alegado tratamento discriminatório do Governo. Até D. Manuel Clemente, bispo do Porto, veio a público reforçar a ideia de uma revolta iminente. No entanto, parece evidente que seriam necessárias medidas ainda mais austeras para despoletar tal situação (até porque esta já se arrasta desde 2006, quando o projecto-lei foi aprovado).
O clima social acabou por beneficiar o Partido Social Democrata, que soube aproveitar o momento para forçar decisões. O PSD lançou um ultimato ao primeiro-ministro, ao pedir o pagamento de portagens nas restantes SCUT do país ou, em contrapartida, a perda do seu apoio na aprovação do projecto para o Norte. Conseguiu assim colocar no calendário a cobrança em mais quatro vias, surgindo como o herói num jogo de tudo ou nada. Impressiona o Norte que reivindicava igualdade; mas não pesou o impacto da sua exigência junto do Sul (onde se concentram as restantes vias), agora insatisfeito por ser integrado na equação.
Em cima da mesa estão ainda por decidir elementos dessa complexa equação. O pagamento de portagens nas SCUT foi concebido em virtude de um controverso sistema de cobrança que deixa sem margem de escolha muitos utentes destas vias. Entre o pagamento por débito bancário com o actual modelo da Via Verde e a aquisição do dispositivo electrónico de matrícula (DEM) para cobrança posterior com custos de administração acrescidos, os condutores entram num sistema pernicioso pois dificilmente escapam às hipóteses dadas.
Perante a discussão, seria oportuno pensar a simples construção de praças de portagem, o que permitiria até criar alguns postos de trabalho. Mas a raiz do problema está, precisamente, na geografia das vias que não permite tal construção. E este é o desafio político de base de todo o projecto, que originou o rebuscado sistema de pagamento. E o Governo vê-se a braços com a dificuldade de integrar no sistema as excepções ao pagamento – moradores e automobilistas afectos à actividade económica. Trata-se da questão que pode pôr em causa a entrada em vigor da cobrança nas SCUT do Norte na data prevista.
É um assunto polémico que tem ainda muitos quilómetros a percorrer mas está já marcado pela pronúncia do Norte que renunciou à mera aceitação da cobrança nas suas vias. A discussão terá novo ponto de viragem nos próximos dias.
17 junho 2010
Arranque do Mundial
O início do Mundial foi, pelo menos, expectável. Num país com níveis de criminalidade tão elevados como os que são conhecidos, era possível antever os problemas que têm marcado as notícias.
Os hóteis são um alvo apetecível e óbvio. Primeiro os jornalistas portugueses e espanhóis. Ficaram sem computadores, máquinas fotográficas, passaportes, dinheiro. As autoridades conseguiram apanhar os assaltantes, que já foram condenados - 15 anos de prisão. Sob os olhares internacionais, age-se rapidamente. E até já há reforço de segurança em vários hóteis.
Também as comitivas das selecções da Grécia e Uruguai já foram atingidas. Há que reconhecer que os assaltantes têm um grande sentido de oportunidade - apanham toda a gente nos estádios, em êxtase com o mundial e aproveitam para fazer uma limpeza.
Pergunto-me se a FIFA terá pensado nestes problemas quando decidiu considerar a África do Sul para acolher um evento como este. É uma oportunidade para desenvolver o país (Portugal beneficiou muito do Europeu de 2004), mas até agora a imagem que tem passado é tudo menos positiva.
13 junho 2010
Limbo
Tenho vinte anos e uma licenciatura nas mãos. Esperei por este momento durante muito tempo, pensando que seria uma altura de grande entusiasmo. A vida a começar. Pôr em prática o tanto que fui aprendendo. Dar os primeiros passos no caminho que vai ser o futuro.
Sei que hoje em dia uma licencitatura não vale de muito. Pensa-se logo no segundo e terceiro ciclo. Mas sempre esperei que, depois de passar a esmagadora maioria da minha existência a estudar e apostar nesse futuro, o cenário seria mais animador.
Crise, é certo. As empresas não contratam. Muitas vão-se servindo do trabalho dos escravos. Perdão, estagiários. Há tempos li uma reportagem sobre eternos estagiários que vão saltando de um estágio para outro, porque não surge nenhuma oferta de emprego. É um medo que cresce.
Aliás, todos os medos associados à incerteza desta fase da vida voltaram, no preciso momento em que pousei a caneta no último exame da faculdade.
E nós, jovens, tão ansiosos por dar ao país o nosso contributo. E o país tão necessitado da participação dos jovens.
É, definitivamente, uma pausa no tempo. Um compasso de espera angustiante, entre um passado bem fresco de anos e anos de estudo e um futuro incerto de abandono, em que ninguém nos quer.
24 abril 2010
A importância de subir a uma mesa
Ando de comboio quase todos os dias. Quem conhece a linha de Cascais sabe que é um exercício relaxante (um privilégio até) poder ver a paisagem que se estende até ao Cais do Sodré, em meia hora de caminho. Tenho um lugar cativo neste comboio. De costas para o destino, é o lugar de onde se vêem todos os quadros que vão surgindo por uma ampla janela, às vezes rabiscada. Há um de que gosto particularmente e que me obriga a desviar o olhar das muitas actividades que me ocupam durante estas viagens diárias.
Um destes dias o meu lugar estava ocupado. Acabei por me atirar contrariada para um banco virado para Lisboa, à janela. Quando passei pelo quadro do costume, reparei num sem-número de pormenores para os quais nunca antes tinha olhado. Como um espelho da fotografia mental que tiro sempre que passo por ali, mas diferente no reflexo obtido.
Como são propícias a reflexões as idas e regressos nesta linha de comboio, fiquei a pensar na importância de olhar a vida através de ângulos diferentes. Atrevermo-nos a espreitar por outro lado e descobrir, maravilhados, uma visão surpreendente.
Lembrei-me de um filme de que gosto muito e de uma cena em particular.
Carpe diem, fellows.
23 abril 2010
Plagiar

Até certo ponto, fixar uma ideia alheia de que se gostou é algo lisonjeador. É sinónimo de reconhecimento, de sucesso. Até este ponto, não é plágio. É inspiração. Mas quando tal inspiração apenas conduz imaginações mais escassas à cópia, é vergonhoso.
Penso que os estudantes do Ensino Superior devem estar (eu estou) particularmente estupefactos com esta situação. Uma professora que terá plagiado parte da sua tese de doutoramento, criando um estatuto que não merece, é simplesmente ultrajante para o universo académico (partindo do princípio de que se trata realmente de plágio, mas aguardando as conclusões da investigação).
É grave plagiar o pensamento. Especialmente, o pensamento teórico de individualidades reconhecidas em áreas de estudo, e leccionar essas teorias como se flutuassem directamente da mente ardilosa de um professor que arquitecta a melhor forma de elevar o seu nome.
Para além de que não é uma atitude muito inteligente, uma vez que as teses costumam ser publicadas e, mesmo não o sendo, hoje nada escapa ao poder da Internet e de softwares especialmente desenhados para desvendar estas situações.
Ficamos à espera de saber se é ou não é. Mas, neste país, muitas coisas (e mais graves) ficam, frequentemente, por provar.
16 abril 2010
Manso é a tua tia, pá
Já não é a primeira vez que o nosso ilustre primeiro-ministro nos presenteia com respostas, no mínimo, inesperadas. Desta vez, saíu-lhe uma à criança da primária, muito na lógica do "quem diz é quem é". Meteu ao barulho familiares dos deputados do Parlamento que nada têm a haver com os debates quinzenais ou com as avultadas remunerações dos gestores públicos.
O comentário de Francisco Louçã não lhe agradou. "De intervenção em intervenção vai ficando um pouco mais manso". Vai daí, nada mais lógico que disparar um "manso é a tua tia, pá". Uma frase que traz ao debate não só uma pitada de infantilidade, como também um Sócrates brejeiro de quem já tínhamos saudades.
Mas coitado do primeiro-ministro. Irritou-se, pois é chato estar constantemente a responder aos ataques dos deputados. Com o microfone desligado julgou que ninguém perceberia e pronto, saiu-se com esta. Atrevo-me a dizer que supera claramente um "por um país mais pobre" e o já clássico "porreiro, pá".
Acontece aos melhores. Até Joe Biden pensou que não se perceberia o "this is a big fucking deal" que atirou a Barack Obama, a celebrar a reforma da saúde nos Estados Unidos.
O que também já não é surpresa é a fixação do público por estes episódios, alimentada pela comunicação social. O que se concluiu em termos políticos do debate de hoje? Não sei, mas sei que o Sócrates se saiu com uma muita gira.
29 março 2010
24 março 2010
Porque voam as aves?
Acho que os pássaros voam mais por uma razão existencial do que pelas explicações em que a biologia nos faz acreditar. Imagino mais facilmente o pensador a fitar a sua dança coordenada, não tanto um cientista das coisas naturais. Procurando mais ardentemente dissecar o sentido desse desfilar, do que o mecanismo que o constrói.
Porque quando a revolta do mar fustiga os ventos as gaivotas procuram refúgio em terra. Assim também voamos constantemente de asas abertas, olhos no horizonte, até que o peso da viagem faça procurar um porto seguro onde aguardar por melhores ventos.
Porque também somos assolados pelo desejo de ir, assim como as aves migram a acompanhar a viagem do sol.
Acredito que os pássaros são a metáfora criada pela Natureza. Querem ensinar-nos a perseverança de um voo contínuo, nem sempre tendo em vista o destino de chegada. Porque o mais importante será a viagem.
Porque o mais importante será a viagem?
16 março 2010
A Guerra dos Mundos e a Guerra da Geórgia
A Rússia invadiu a Geórgia. O Presidente georgiano Mikhail Saakachvili está morto e as ruas estão a ser invadidas por tanques russos.
Foi isto que o noticiário da estação televisiva Imedi TV transmitiu, no Sábado passado, ao povo georgiano. Apesar de ter antecipado que a notícia se trataria de uma simulação, o repórter deve ter sido bastante convincente, de tal modo que a população da Geórgia entrou em pânico perante a possibilidade de reviver acontecimentos tão próximos como foi o conflito entre os dois países em questão, no Verão de 2008.
A notícia deixou em alvoroço jornais, televisões, rádios nacionais, mas também os media internacionais. Parece que poucos a tomaram como falsa. Diz-se até que pessoas morreram com ataques cardíacos e crianças foram internadas devido ao medo que se gerou.
Associada inevitavelmente à experiência de Orson Wells, esta "brincadeira", como muitos a apelidaram, faz-nos pensar em algumas coisas. Primeira: seremos tão ingénuos quanto o povo americano de 1938, que acreditou fielmente que o relato radiofónico de A Guerra dos Mundos estava a ser noticiado como um acontecimento verídico? Talvez não tivéssemos (porque não foram só os georgianos) acreditado na história, caso se tratasse de uma invasão de marcianos. Mas há que pensar que aqui a ameaça russa foi, e continua a ser, uma realidade que a população do ex-território soviético já viveu.
Segunda: Acreditamos tão piamente no que os media dizem, que absorvemos tudo sem o menor esforço de dúvida. Estabelecemos com eles uma relação contratual baseada numa confiança inabalável, depositada na figura do apresentador que todos os dias nos entra pela casa. De um modo geral, o que a comunicação social diz, assim é. Mas são episódios como este que dão origem às famosas teorias da conspiração. Não é para surpresas que alguns duvidem da veracidade de imagens como a ida do Homem à Lua ou mesmo do 11 de Setembro.
O acontecimento virá, de certo, abalar uma altura importante na relação entre Rússia e Geórgia, quando os dois países estão a fazer esforços no sentido de uma maior cooperação. Também por isso, há quem sustente que toda a "brincadeira" foi orquestrada pela oposição para perturbar a tentativa de aproximação. Algo que se junta à lista de factos a que o grande público nunca terá acesso.
13 março 2010
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