20 dezembro 2012

Para que o tempo não gangrene

Teremos sempre Paris
Construída de raiz
Com cobertores no chão
 
Para que o tempo não gangrene
O nosso Outono Cheyenne
Retorno ao cemitério

Tinta preta, doce mel
Entre favos de papel
Os medos lambuzados

Recuamos para a frente
Tango pouco inteligente
Avançamos para trás
Tango muito eficaz
Ou não

No velho carro ligeiro
Eu fui sempre passageiro
Vocês foram para sempre

Escuro comprometedor
Era um túnel do Amor
E eu só liguei os mínimos

Acercamo-nos distantes
Se queremos ser estudantes
Morramos em Tiananmen

Recuamos para a frente
Tango pouco inteligente
Avançamos para trás
Tango muito eficaz
Ou não

Choramos os nossos risos
Fados muito imprecisos
Rimo-nos dos nossos ais
Fados pouco casuais
Ou não

 Samuel Úria

22 novembro 2012

Lições do Alvim

Um país a andar por aí!

Ando entretido com o tempo. Vejo com militância budista cada um dos boletins meteorológicos e gosto de perceber que nem sempre acertam com a mão na zona a que se referem. Ainda ontem vi a senhora meteorologista a dizer que haveria precipitação a norte do cabo da Roca mais para o final do dia e apontava claramente para a zona de Carregal do Sal. As previsões meteorológicas são um pouco como as do nosso governo; aponta-se mais ou menos para uma zona que não se está a ver bem, mas que se calcula existir, e depois é esperar que se acerte. Se acertar, será claro que é devido à sua competência e extraordinária visão do assunto; se falhar, parece-me claro que terá sido devido a factores externos absolutamente alheios e impossíveis de prever. O tempo o dirá. A isso, a resposta, dá-nos sempre o amanhã, que é uma coisa que se inventou há imenso tempo e é um empecilho para toda esta gente. Aliás, o grande problema do mundo é de facto o amanhã. Isto é, se só houvesse hoje, este hoje fresquinho de lota, de nascer do dia, de pãozinho quente ou, melhor ainda – ontem –, estávamos nós muitíssimo bem. Não havia problema algum. O problema são estes pensadores modernos que vieram com esta moda de pensarmos no amanhã e noutros sucedâneos. Isto é que tramou esta gente. E os meteorologistas sabem-no bem, e por isso é que já não pegam no famoso ponteiro de metal e o apontam. Porquê? Primeiro porque não há liquidez financeira para ponteiros de metal nos dias de hoje, depois porque assim se evita a sua inconveniente precisão, segundo porque a mão aberta nos dá essa visão alargada que está sempre associada ao “é por aqui”. E isto é justamente igual a irmos ao médico e, tirada a camisa para auscultação, o médico perguntar-nos “então onde é a dor?” e nós lá vamos dizendo a muito custo “ó senhor doutor, é por aí...” E pronto, por isso mesmo é que temos um país que está por aí, quer dizer, temos pessoas que estão também por aí, que andam por aí, que falam por aí e fazem previsões também por aí. O amanhã é uma chatice, bem sei, e ainda por aí, mas é possível que nos diga em breve onde será por aqui.

09 agosto 2012

A esplendorosa caça à multa

«Há hoje fotografias nas redes sociais de tudo isto. Há grupos no Facebook em que os utilizadores, gente muito respeitável, lança avisos sobre onde há brigadas, a que se referem eufemisticamente: "leitões ao quilómetro 30 da A3", "suínos à entrada do Marco de Canaveses", "ninhada de ratos à entrada de Santo Tirso", "gnomos verdes no Furadouro", "motorratos em Famalicão", "capões na entrada para Braga".

As taxas, as multas e os impostos são maneiras diferentes de tirar dinheiro dos bolsos dos portugueses. Uma receita de 90 milhões de euros em multas num ano tem o mesmo impacto que aumentar o IRS. É, lamento a vulgaridade, apenas sacar dinheiro.»

Pedro Santos Guerreiro e "A esplendorosa caça à multa".

17 abril 2012

Há dias

...em que este mundo me dá um nó na garganta. Hoje não deu só um, deu vários. Começou com a carinha do Anders Breivik no tribunal e acabou com esta fotografia espectacular e horripilante.

É um trabalho de Massoud Hossaini e venceu, merecidamente, o Pulitzer de 2012 na categoria de Breaking News Photography.

Massoud Hossaini/AFP
Tarana Akbari, 12, screams in fear moments after a suicide bomber detonated a bomb in a crowd at the Abul Fazel Shrine in Kabul on December 06, 2011. 'When I could stand up, I saw that everybody was around me on the ground, really bloody. I was really, really scared,' said the Tarana, whose name means 'melody' in English. Out of 17 women and children from her family who went to a riverside shrine in Kabul that day to mark the Shiite holy day of Ashura, seven died including her seven-year-old brother Shoaib. More than 70 people lost their lives in all, and at least nine other members of Tarana's family were wounded. The blasts has prompted fears that Afghanistan could see the sort of sectarian violence that has pitched Shiite against Sunni Muslims in Iraq and Pakistan. The attack was the deadliest strike on the capital in three years. President Hamid Karzai said this was the first time insurgents had struck on such an important religious day. The Taliban condemned the attack, which some official viewed as sectarian. On the same day, a second bomber attacked in the northern city of Mazar-i-Sharif. Karzai said on December 11 that a total of 80 people were killed in both attacks. Published December 7, 2011

15 abril 2012

Educação, esse luxo

Todos os dias, uma média de 100 alunos desiste do ensino superior. Muitos outros congelam matrículas ou acumulam dívidas enquanto esperam pela resposta dos serviços de acção social sobre os pedidos de bolsa. Há ainda outros que prescindem dos livros e da alimentação, mas não do sonho de estudar.

Enquanto via hoje a Grande Reportagem da SIC, Abandono Silencioso, senti-me envergonhada. Envergonhada pelo meu país, que permite estas situações, que permite que os seus cidadãos hipotequem desta maneira o seu futuro.

Não se trata de política, ou políticas, mas da realidade; da realidade que não vem na comunicação social de todos os dias. Um banho de realidade.

Já que falamos em políticas, fiquei particularmente surpreendida pelo facto de o ministério não ter feito um comentário pedido pela SIC, e ter recuperado um comentário do secretário de Estado do Ensino Superior feita em Fevereiro. Dizia ele que o número de desistências até tinha diminuído este ano em relação a 2011 e que não havia estudos sobre o assunto. A Educação deste país anda mesmo uma balda. E não é só nos parques escolares.

Os jovens entrevistados surpreenderam-me por terem algo em comum: a vontade de não desistir. Senti-me também sortuda por ter conseguido fazer uma licenciatura (embora não saiba quando será possível um mestrado, uma pós-graduação, um doutoramento). Não sei teria tido a persistência e força de vontade destas pessoas.

A educação superior é um luxo?, perguntava-se na reportagem. Cada vez mais, é óbvio.

13 março 2012

Workshop de jornalismo


Em termos teóricos, continuo à espera. Enquanto espero, vou arranjando o que fazer e participando em tudo quanto posso. O tempo, na verdade, é pouco para tanto que quero fazer. Espero, e espero que estes projectos dêem o seu fruto no futuro.

Por agora, fica aqui um workshop de jornalismo para jovens.

16 fevereiro 2012

O sorriso dos dissidentes

Esta semana escrevi um artigo sobre 13 dissidentes do regime chinês, alvo das perseguições do Governo. Uns estão presos, alguns pela terceira e quarta vez. Outros estão em liberdade, mas vigiados constantemente.

Têm histórias de vida impressionantes e são exemplos irrefutáveis de coragem.


Este é Gao Zhisheng, um advogado activista de 45 anos. Desconhece-se o seu paradeiro. Oficiais informaram a sua família de que está num período de "reeducação" de três meses. Presume-se que esteja na prisão de Xinjiang. Por "reeducação" poderá entender-se tortura e agressões, de que Gao já afirmou ter sido alvo durante anteriores detenções e desaparecimentos.

O seu crime? Criticou o governo chinês e testemunhou em tribunal a favor de altas figuras políticas e religiosas dissidentes.

O seu sorriso impressionou-me. É o sorriso de uma consciência tranquila. É o sorriso de quem mantém os seus ideais mesmo vivendo um dia-a-dia de incerteza, repressão e violência. É por causa de pessoas como Gao Zhisheng que o mundo ainda não está perdido.

Deixo aqui também o apelo do poeta Zhu Yufu, condenado a sete anos de prisão por escrever este poema.

“It’s Time” by Zhu Yufu

It’s time, people of China! It’s time.
The Square belongs to everyone.
With your own two feet
It’s time to head to the Square and make your choice.

It’s time, people of China! It’s time.
A song belongs to everyone.
From your own throat
It’s time to voice the song in your heart.

It’s time, people of China! It’s time.
China belongs to everyone.
Of your own will
It’s time to choose what China shall be.
 

Podem ler as histórias inspiradoras destas pessoas aqui.

01 fevereiro 2012

Nuestros hermanos


Parece que não são só os nossos políticos a meter o pé na argola de vez em quando.

Esta semana, o novo primeiro-ministro espanhol foi apanhado pelos microfones da comunicação social com duas saídas pouco felizes.

Na segunda-feira, Mariano Rajoy falava aos seus homónimos holandês e finlandês sobre a reforma do mercado de trabalho espanhol, quando lhes confidencia "La laboral me va a costar una huelga general". Esta frase gerou alguma controvérsia porque dá a entender que o chefe do governo está mais preocupado com o impacto das medidas na sua imagem política, medidas essas que, diz, lhe vão custar uma greve geral. Ler e ver mais aqui.

Hoje, pousava para os fotógrafos com Artur Mas, presidente do governo da Catalunha, quando não lhe ocorre outro desbloqueador de conversa que não: "Vivo en el lío". Algo como "a minha vida é uma confusão". Ler e ver mais aqui.

Andar a pé

Hoje vi esta infografia sobre os novos aumentos dos preços dos transportes. Lembrei-me de ouvir o actor Manuel Cavaco no Alta Definição a contar que, antigamente, ia de Cascais até Campo de Ourique a pé. Não pude deixar de pensar que para muitas famílias estes preços já são tão incomportáveis que a alternativa deverá passar a ser mesmo andar a pé. Como antigamente.

20 janeiro 2012

He sure can sing...

...but can he win?

Obama cantou um verso da música Let's Stay Together, de Al Green, porque o cantor estava na audiência de uma angariação de fundos no Apollo Theater, em Nova Iorque. E surpreendeu-me, até canta bem. Cá para mim, carisma é meio caminho andado para a vitória e disso Barack Obama tem muito.


Obama, cantas bem mas não tão bem quanto o nosso Primeiro.

16 janeiro 2012

Folhetos baixos de Janeiro a Janeiro


A administração da Jerónimo Martins achou por bem distribuir aos clientes do Pingo Doce este folheto. Até aqui, tudo bem. O que não está muito bem é o conteúdo que, a desmentir muito, acaba por não afirmar nada. Vamos por partes.

1. "Em nome dos mais de 25 mil colaboradores que o Pingo Doce emprega em Portugal..."
Tradução: que bonzinhos que somos, damos emprego a tantas pessoas, não merecemos esta infâmia que se abateu sobre nós. Isto do emprego, podendo ser verdade, é a bandeira do Pingo Doce, o que já cansa. Isso e os preços baixos de Janeiro a Janeiro.

2. "...notícias e comentários (...) que contêm graves inverdades"
Pelo meu dicionário, inverdades são mentiras. Mas pronto, inverdades e paninhos quentes ficam melhor na fotografia. No folheto.

3. "...pelo respeito e consideração que os nossos clientes nos merecem enquanto nossa principal razão de ser..."
E eu que jurava que a principal razão de ser do Pingo Doce era o retalho.

4. "Tudo o que ouvir ou ler em sentido contrário ao que aqui afirmamos pode considerar, sem margem para qualquer dúvida, falso e/ou demagógico."
Ponto final. Todo o que não está comigo, está contra mim. Não há cá Suíças.

5. "2012 não vai ser um ano fácil, mas acredite que tudo faremos continuar ao seu lado..."
A rematar, e como não podia faltar, um bocadinho de crise e dificuldades.

Por moralismos e desmentidos assertivos, este folheto visa convencer pessoas que não se perguntam "então se não é isto, o que é?". E nesse objectivo deve estar a ter sucesso, porque a desinformação é sempre a escolha mais favorável nestas situações em que a opinião pública é (facilmente) manipulada.

Este folheto foi distribuído numa loja Pingo Doce local.

12 janeiro 2012

Uma decisão

Eu tinha uns 15 anos e uma decisão fresca. Era a altura dos testes psicotécnicos e de decidir o que havia de fazer da vida. (Aos 15 anos não podemos decidir o que fazer da vida. Mas é essa a percepção que Portugal tem do ensino superior - as licenciaturas são cursos técnicos que determinam a carreira profissional. Direito faz advogados. Filosofia faz professores.) As ciências exactas nunca me cativaram. Iria para Humanidades.

A pouco surgiu-me uma ideia, que se tornou uma paixão. Não me via a fazer nada que não fosse escrever. Surgiu-me o jornalismo.(Comunicação social faz desempregados.)

Cresceu-me a nobreza da profissão. E, sem experiência - talvez até sem grande consciência - fiz-me à vida. Sempre gostei da minha proactividade.

Contactei um jornal local (tive de o googlar para ver se ainda existe). Estava de férias, as férias grandes (o que é isso agora?), e queria alguma coisa para me mostrar o que era este mundo do jornalismo onde até aquele jornal pequenino me parecia enorme.

Fui à redacção. Lembro-me de gostar do espaço, dos movimentos, das pessoas. Algumas televisões ligadas, muitas pilhas de papéis. O chefe de redacção (ou editor, escapa-me a memória) perguntou-me quem eu era. E agora que penso nesse dia acho que nunca teve realmente intenção de aceder ao meu pedido - o que é que eu sabia de escrever reportagens ou de fazer contactos, para me chegar a um jornal e pedir um estágio.

Combinámos que voltaria com dois textos escritos. Só me lembro de um: a missão era descrever a linha de Cascais, num passeio ao Domingo de manhã.

Nunca tive resposta àqueles artigos. Nunca soube se o meu pedido tinha sido alvo de alguma apreciação.

Já não recordo ao certo a sua cara, mas nunca esqueci o que me disse. Aconselhou-me fervorosamente a não seguir "esta vida". Tomei o conselho com alguma indignação e registei-o como o desabafo de um homem velho, cansado.

Mas ao longo destes anos ouvi repetir a mensagem, muitas vezes, e por pessoas que não são velhas na profissão nem estão cansadas. E ouvi-a tomar a forma de um conselho: tirar uma formação inicial numa área que não as da comunicação e do jornalismo. Imaginei-o sempre como uma traição àquela nobre profissão que almejava.

Hoje, reconheço razão a todos os que repetiram estas mensagens. Mas não consigo sentir arrependimento pela decisão dos 15 anos. Continuo a gostar disto, mais agora que já senti o gosto de ver um bom artigo assinado com o meu nome. Mais agora que vivi acontecimentos importantes dentro de uma redacção. Mais agora que conheci quem faz disto um modo de vida, para além de um ganha-pão.

E só lamento, na decisão dos 15 anos, a falta de oportunidades para entrar neste meio. E os jornais, revistas e rádios que fecham. E os despedimentos colectivos. E as rescisões. E os departamentos encerrados. E os salários congelados. E os estágios não remunerados.