12 janeiro 2012

Uma decisão

Eu tinha uns 15 anos e uma decisão fresca. Era a altura dos testes psicotécnicos e de decidir o que havia de fazer da vida. (Aos 15 anos não podemos decidir o que fazer da vida. Mas é essa a percepção que Portugal tem do ensino superior - as licenciaturas são cursos técnicos que determinam a carreira profissional. Direito faz advogados. Filosofia faz professores.) As ciências exactas nunca me cativaram. Iria para Humanidades.

A pouco surgiu-me uma ideia, que se tornou uma paixão. Não me via a fazer nada que não fosse escrever. Surgiu-me o jornalismo.(Comunicação social faz desempregados.)

Cresceu-me a nobreza da profissão. E, sem experiência - talvez até sem grande consciência - fiz-me à vida. Sempre gostei da minha proactividade.

Contactei um jornal local (tive de o googlar para ver se ainda existe). Estava de férias, as férias grandes (o que é isso agora?), e queria alguma coisa para me mostrar o que era este mundo do jornalismo onde até aquele jornal pequenino me parecia enorme.

Fui à redacção. Lembro-me de gostar do espaço, dos movimentos, das pessoas. Algumas televisões ligadas, muitas pilhas de papéis. O chefe de redacção (ou editor, escapa-me a memória) perguntou-me quem eu era. E agora que penso nesse dia acho que nunca teve realmente intenção de aceder ao meu pedido - o que é que eu sabia de escrever reportagens ou de fazer contactos, para me chegar a um jornal e pedir um estágio.

Combinámos que voltaria com dois textos escritos. Só me lembro de um: a missão era descrever a linha de Cascais, num passeio ao Domingo de manhã.

Nunca tive resposta àqueles artigos. Nunca soube se o meu pedido tinha sido alvo de alguma apreciação.

Já não recordo ao certo a sua cara, mas nunca esqueci o que me disse. Aconselhou-me fervorosamente a não seguir "esta vida". Tomei o conselho com alguma indignação e registei-o como o desabafo de um homem velho, cansado.

Mas ao longo destes anos ouvi repetir a mensagem, muitas vezes, e por pessoas que não são velhas na profissão nem estão cansadas. E ouvi-a tomar a forma de um conselho: tirar uma formação inicial numa área que não as da comunicação e do jornalismo. Imaginei-o sempre como uma traição àquela nobre profissão que almejava.

Hoje, reconheço razão a todos os que repetiram estas mensagens. Mas não consigo sentir arrependimento pela decisão dos 15 anos. Continuo a gostar disto, mais agora que já senti o gosto de ver um bom artigo assinado com o meu nome. Mais agora que vivi acontecimentos importantes dentro de uma redacção. Mais agora que conheci quem faz disto um modo de vida, para além de um ganha-pão.

E só lamento, na decisão dos 15 anos, a falta de oportunidades para entrar neste meio. E os jornais, revistas e rádios que fecham. E os despedimentos colectivos. E as rescisões. E os departamentos encerrados. E os salários congelados. E os estágios não remunerados.

2 comentários:

  1. Penso que até tive alguma culpa nessa decisão...Na altura, rodeada de jovens que apresentavam tantos problemas na escrita, tu já a desenvolvias de forma ímpar.
    Infelizmente, tanto nesta como em outras áreas, de forma geral, a sociedade continua a dar mais importância a "quem somos", que o que somos e o que valemos.
    Ao longo da vida têm sido muitas as vezes que ouço "quem é ela?", e acredita que não tem sido só neste rectângulo à beira-mar plantado, ainda que admita que é algo mais intrínseco no povo latino.
    Ser persistente e não desistir de fazer valer o que sou e no que acredito, mesmo sendo uma desconhecida, tem sido um dos meus cavalos de batalha.
    Ainda bem que não te arrependeste da decisão que tomaste, porque na minha opinião, deveria ser pecado arrepender-se de fazer algo que se faz com paixão.

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    1. Culpa parece muito negativo. Mas influência, sim, definitivamente. Vou (vamos) continuar a batalhar por isso, porque sim, é feito com muita paixão. Obrigada, Gina :)

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