22 novembro 2012

Lições do Alvim

Um país a andar por aí!

Ando entretido com o tempo. Vejo com militância budista cada um dos boletins meteorológicos e gosto de perceber que nem sempre acertam com a mão na zona a que se referem. Ainda ontem vi a senhora meteorologista a dizer que haveria precipitação a norte do cabo da Roca mais para o final do dia e apontava claramente para a zona de Carregal do Sal. As previsões meteorológicas são um pouco como as do nosso governo; aponta-se mais ou menos para uma zona que não se está a ver bem, mas que se calcula existir, e depois é esperar que se acerte. Se acertar, será claro que é devido à sua competência e extraordinária visão do assunto; se falhar, parece-me claro que terá sido devido a factores externos absolutamente alheios e impossíveis de prever. O tempo o dirá. A isso, a resposta, dá-nos sempre o amanhã, que é uma coisa que se inventou há imenso tempo e é um empecilho para toda esta gente. Aliás, o grande problema do mundo é de facto o amanhã. Isto é, se só houvesse hoje, este hoje fresquinho de lota, de nascer do dia, de pãozinho quente ou, melhor ainda – ontem –, estávamos nós muitíssimo bem. Não havia problema algum. O problema são estes pensadores modernos que vieram com esta moda de pensarmos no amanhã e noutros sucedâneos. Isto é que tramou esta gente. E os meteorologistas sabem-no bem, e por isso é que já não pegam no famoso ponteiro de metal e o apontam. Porquê? Primeiro porque não há liquidez financeira para ponteiros de metal nos dias de hoje, depois porque assim se evita a sua inconveniente precisão, segundo porque a mão aberta nos dá essa visão alargada que está sempre associada ao “é por aqui”. E isto é justamente igual a irmos ao médico e, tirada a camisa para auscultação, o médico perguntar-nos “então onde é a dor?” e nós lá vamos dizendo a muito custo “ó senhor doutor, é por aí...” E pronto, por isso mesmo é que temos um país que está por aí, quer dizer, temos pessoas que estão também por aí, que andam por aí, que falam por aí e fazem previsões também por aí. O amanhã é uma chatice, bem sei, e ainda por aí, mas é possível que nos diga em breve onde será por aqui.

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