30 dezembro 2011

É de aproveitar

Gente, quem está a pensar adoecer aproveite os últimos dias de taxas moderadoras a preço de saldo – até calha bem, estamos na época de saldos e das gripes – porque em 2012 vai custar muito mais ficar doente e nós somos um povo que é muito dado a estas coisas das dores e de correr para as urgências dos hospitais.

Também somos um povo que tem dos ordenados mínimos mais baixos entre os países europeus. Despesas a aumentar, ordenados a cair… O colossal buraco do sector da saúde não poderia ser resolvido, pelo menos em parte, com uma melhor gestão dos seus recursos? É mesmo preciso sobrecarregar o utente num bem tão necessário e condigno quanto os cuidados médicos?

Imagem daqui.
Ou – já que estamos neste assunto – pode seguir-se o exemplo do Hospital de Cascais e tentar-se cobrar consultas que não chegaram a ser feitas por desistência do utente – moi même – que preferiu ir sofrer para casa do que estar três horas à espera.

22 dezembro 2011

Em stand-by

Agora que chegámos à rotina de fazer balanços do ano volvido e tecer desejos para o próximo, tenho uma proposta muito simples.

Este ano foi difícil. Compreendemos finalmente a gravidade da nossa situação económica e começámos a cortar - muito em cima do acontecimento. E desse momento de iluminação até uma aflição grande - em que os pedidos de ajuda às instituições sociais dispararam, mais miúdos vão para a escola de estômago vazio, não há como pagar os transportes, o combustível e as portagens... - passaram-se apenas alguns meses.

Por isso, parece-me óbvio que só uma coisa a fazer: passemos 2012 à frente. De qualquer forma, a situação pouco melhorará e, apesar de se ir murmurando sobre 2015, o primeiro-ministro já disse que é em 2013 que os portugueses vão ver que os seus sacrifícios compensaram.

Entremos em stand-by neste 31 de Dezembro e voltemos à vida em Janeiro de 2013. Quem manda não se importará; também não me soa que acredite que possamos suportar estoicamente um ano tão difícil quanto o que já se fez anunciar.

O próprio país já está em compasso de espera. Espera por uma solução para esta crise financeira económica? Espera pela gota de água nos sacrifícios sociais arrancados a quem já tem tão pouco?

Assim como assim os salários, as reformas, as contratações e os sonhos já estão em stand-by.

Retire-se 2012 dos livros de história. Passe-se do capítulo sobre a primavera árabe para a uma recuperação milagrosa da velha Europa.

10 novembro 2011

Smart is the new sexy


Be able to find Iran on a map. Know what the city council is up to behind closed doors. Find out how to make an icebox peanut butter pie from scratch. Get it all in the newspaper, print or digital, because a little depth looks great on you.
PRINT    DIGITAL    TODAY    TOMORROW
A Newspaper Association of America lançou uma campanha para promover a leitura de jornais, online e impressos. Smart is the new sexy é o mote da acção, que durará seis semanas e pretende gerar algum buzz nas redes sociais.

É uma ideia óptima para apelar ao interesse dos leitores e está muito bem conseguida. E, portugueses, podíamos beneficiar de um bocadinho mais de leitura - esta pergunta ainda não deve ter saído na Casa dos Segredos, mas quantos concorrentes saberiam apontar num mapa onde fica o Irão?

Do outro lado, falta que os jornais sejam, de facto, interessantes e informativos.

Mais informações sobre a campanha aqui.

...because a little depth looks great on you.

27 outubro 2011

Eternamente

"E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas do céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos e até teias de aranha suspensas do tecto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, contemplámo-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente

Heathcleaff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo.Como explicar-te que tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penélope alguma desfará de noite a teia que te teceste.
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e as buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu. E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.

Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos, acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.

E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo poderia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares, Não te Deixarei Morrer David Crockett

18 outubro 2011

Little things

Há uns dias, na viagem Lisboa-Cascais, vi um homem dar um uso interessante ao bilhete do comboio.

Passou uns minutos a brincar com o papel. Antes de sair na sua estação, entalou na dobra do banco um pássaro, feito em origami.

Não sei porquê, aquilo tocou-me de uma maneira especial. Talvez por me ter imaginado a chegar nesse instante àquele banco e a encontrar aquele papel - sem saber que mãos o tinham trabalhado, mas indubitavelmente com a presença de alguém. Como se recebesse uma mensagem enviada por um estranho.

Entretanto andei a navegar pela Wikipédia e encontrei a história de Sadako Sasaki, uma menina japonesa vítima de Hiroshima aos dois anos. Sadako ouviu uma lenda japonesa segundo a qual quem fizer 1000 garças em origami teria um desejo. Internada no hospital, Sadako fez 646 garças antes de morrer. O seu desejo era a cura.

Bonito, hein?

03 outubro 2011

Sou pela realidade.

"- Bem sabes que quando sou bruto e directo tenho razões para isso. Não te quero inferiorizar, nem gozar à tua custa. Mas gostava realmente de ouvir as tuas respostas precisas a certas coisas. O que é mais importante, a paz e a alegria ou o conhecimento? Se o facto de saberes menos te fizesse um homem feliz, o que é que escolhias? (...)


Sou pela realidade. Mais e mais realidade. Se quiseres, sou um fanático da realidade. E o que é a astrologia? O que tem ela que ver com a realidade? Alguma  coisa, com certeza. Da mesma maneira que a astrologia, a biologia, as matemáticas, a música, a literatura; e também as vacas que pastam nos campos e as flores, as ervas daninhas e o adubo que lhes dá vida. Segundo certos aspectos, há coisas que parecem mais importantes que outras. Diz-se que umas coisas têm valor e outras não. Tudo tem valor e é importante."

Um diabo no paraíso, Henry Miller

13 julho 2011

Norberto Lobo

Na passada quinta-feira começou o ciclo de concerto de Verão no Museu do Chiado. Não podia ter começado melhor.

Ouvi Norberto Lobo ao vivo, pouco tempo depois de ter conhecido a sua música. Podia dizer que foi emocionante, envolvente e único. Devia dizer que está entre os melhores guitarristas que já ouvi. Mas não seria suficiente. Porque para conhecer Norberto Lobo é preciso ouvi-lo ao vivo, a tocar cada corda ora com uma delicadeza subtil, ora com uma firmeza fracturante.

Ao vivo, vemos a sua expressão de serenidade e entrega total. Vemo-lo a abraçar a guitarra, que conhece melhor do que a palma da mão. Antecipa cada som e usa a guitarra como poucos. Vai para além dos acordes, depois de percorrer a sua escala inteira.

Ao vivo, vemos a humildade da sua música e da sua pessoa. Apresenta-se ao público (e a audiência não parou de crescer durante todo o concerto) sem pretensões nem preciosismos. Apenas no final, um obrigado. Entre as músicas, um acenar de cabeça simples de quem reconhece o bom trabalho, o dever cumprido.

Para fechar os olhos, e ouvir.

02 julho 2011

Até onde vai o oportunismo humano?




Depois da morte de Ryan Dunn, actor de Jackass, e um amigo, fãs e curiosos visitam o local do acidente de viação no estado da Pensilvânia. É chocante o que se vê neste vídeo, aos 4 minutos - algumas dessas pessoas recolhem partes do Porsche destruído de Dunn para vender no Ebay. O local está sinalizado como pertencendo a uma investigação das autoridades.

Até onde vai o oportunismo humano?

01 julho 2011

Por falar em Goucha...

Depois do peito da Maya e de um parto em directo na Conceição Lino, vimos na TVI o vídeo da operação à vesícula do Goucha.

Nunca pensei ver as entranhas de Manuel Luís Goucha na televisão. Não é coisa bonita de se ver e acho que ultrapassa o bigode.

"A Maldição da fama"

É o título da Visão desta semana, acompanhado por uma galeria de fotografias de figuras públicas (vivas e mortas). Leio este título e pergunto-me se serão apenas os famosos a sofrer acidentes brutais e trágicos como o que vitimou Angélico Vieira - ou se a Visão pensa assim.

A legendar as fotografias, um texto descreve que o acidente ocorreu "ao volante de um BMW, em excesso de velocidade e sem cinto de segurança posto". Enquanto anda toda a gente a conjecturar as circunstâncias do acidente, a Visão apurou que o condutor ia em excesso de velocidade e, já no interior do artigo, afirma que Angélico Vieira "iria sentado em cima do seu cinto para enganar o sensor". Fonte, é que nem vê-la. A GNR é citada unicamente na explicação de que os passageiros seriam projectados porque não levariam cinto de segurança.

Indignam-me as afirmações peremptórias deste artigo, escasso em referências a fontes. Nestes casos, a verdade raramente é conhecida na sua totalidade, perde-se no meio do "diz que disse" e do endeusamento da personalidade pública falecida. Não alimentar o desejo ávido do público por pormenores sórdidos e certezas infundadas deve ser um dever da comunicação social (da que se preza, pelo menos).

Estas afirmações ganham outra dimensão pelo facto de o passageiro que saiu ileso do acidente ter anunciado, esta semana no programa do Goucha, que Angélico Vieira levava cinto de segurança. As diferentes versões vão suceder-se e muito vai ainda ser escrito - importa, sim, perceber o que se passou e publicar a verdade. Não o que o público quer ler.

Apesar de tudo isto, é menos mau um artigo sobre os efeitos perniciosos da fama - mesmo que junte na mesma leva os suicídios de Marilyn Monroe e Jimi Hendrix (entre outros), o assassinato de John Lenon, o acidente da princesa Diana, a prisão de um participante do Big Brother, a ida de José Carlos Pereira para rehab -, menos mau, do que a tragédia, o choque e as lágrimas que fazem capa de outras revistas. Pelo menos a Visão não repetiu, passo a passo, a morte de Angélico Vieira. É que até se fizeram infografias do acidente...

06 junho 2011

Apontamentos do acto eleitoral

Passos Coelho cantou o hino duas vezes. Discurso de vitória (mais fraquinho que o de derrota de Sócrates, segundo consta) > hino > perguntas dos jornalistas > confusão para sair do hotel e chegar ao Marquês de Pombal > outro discurso > hino. O homem canta bem, vá, mas era escusado.

Não esperava a
demissão de Sócrates e acho que não se justifica. É verdade que teria uma vida difícil na oposição e seria, certamente, linchado de cada vez que abrisse a boca. Mas a responsabilidade não acabou aqui e, se não tinha a confiança dos portugueses para ser primeiro-ministro, que fosse o deputado eleito pelos 28,1%.

Depois da campanha do CDS-PP esperava um grande crescimento no resultado, mas foi só assim assim. A avaliar pela cara de
Paulo Portas no discurso também devia estar à espera de mais - talvez por isso só falou ao fim da noite, mesmo antes de Pedro Passos Coelho, para ver se pingavam mais uns votos nas contagens finais.

Portas esteve bem com o seu ar sério e a pedir que não se cedesse a euforias do momento porque a situação não é para celebrações. Pouco depois, Passos Coelho dizia o mesmo.

Miguel Sousa Tavares diz que o
Bloco de Esquerda vai implodir. Que é feito do Louçã que rosnava aos outros candidatos em 2009? Anda quase tão esmorecido e apagado quanto o Jerónimo. Ainda assim, mais um deputado para o PCP.

A
abstenção foi colossal, 41,1%. Não esperava que, no estado em que o país se encontra, a reacção das pessoas fosse a desmobilização. O país já passou há muito a linha que separa o desinteresse e a necessidade de fazer algo pela nossa situação. Esperava francamente que os eleitores tivessem consciência da importância deste acto eleitoral.

Tanta coisa e vai-se a ver até o
Partido pelos Animais ultrapassa o PCTP/MRPP e consegue um deputado. Para além disso, o Garcia Pereira ainda pode levar nas orelhas da Comissão Nacional de Eleições por declarações proferidas após o período de campanha. Mas ele não se fica e já apresentou uma queixa-crime contra a CNE por "denúncia caluniosa, abuso de poder e denegação de justiça e prevaricação. O contributo do PCTP/MRPP para o país vai ser tornar a Justiça ainda mais lenta, dado o volume de queixas e providências que o seu líder apresenta.

Por falar em calar, era o que os
militantes do PS queriam fazer aos jornalistas depois do discurso de derrota/demissão de Sócrates. Ao fim de seis anos a desconsiderar a comunicação social, Sócrates disponibiliza-se a responder às perguntas - e os militantes vaiam cada palavra dos jornalistas. Muito bonito.

E quantas pessoas não votaram por não saberem o seu
número de eleitor? Desta vez o Governo enviou umas cartinhas para casa dos eleitores com indicações de como saber o número ou, por outras palavras, de como evitar a bronca das presidenciais.

Alberto João Jardim: “Vamos ver se o próximo Governo é finalmente de acordo com aquilo que interessa à Madeira. É preciso que não siga o mau exemplo de outros primeiros-ministros do PSD.” Sempre a puxar a brasa à sua sardinha.

16 maio 2011

Felicidade em perspectiva

Seja como for, aquilo que é verdadeiramente marcante - e que justifica a selecção da descoberta da perspectiva como um dos factos do milénio - é que esta invenção não corresponde a uma simples representação do campo visual, mas a uma verdadeira atitude filosófica perante a vida. Ou seja: a perspectiva não é apenas um modo de representação do real, mas uma abordagem em perspectiva do real. E isto é extrapolável para todos os domínios do conhecimento e da sua representação - a arquitectura, a antropologia, a economia - e para todas as abordagens filosóficas perante a vida. Quando, por exemplo, Bergson caracterizava a felicidade apenas como «a ausência de sofrimento», ele utilizava uma noção de perspectiva ou, se quiserem, de profundidade perante a vida: hoje sou feliz, mas amanhã posso não ser e para o ano posso ser outra vez. Nada é eterno nem adquirido, tudo é fugaz e passageiro. A ilusão - seja a de felicidade ou a de tristeza - é acreditar num horizonte fechado, ao alcance da vista, que ignora ou finge ignorar os horizontes sucessivos que estão para além do imediato.
Estação 2000: Perspectiva in Não te deixarei morrer, David Crockett

Le fils de l'homme, Magritte

04 abril 2011

Até onde chega a indiferença?

Só uma pergunta: o que é que se passa na vida das pessoas para que não reparem que os vizinhos desapareceram há anos?

Hoje foi encontrado mais um idoso morto, numa casa em Oeiras - desde 2006.

12 março 2011

Gerações à rasca


foto Gonçalo Villaverde/Global Imagens

Fala-se numa mobilização histórica. A organização do protesto Geração à Rasca aponta para a participação de quase 300 mil pessoas (um número muito maior do que será, certamente, avançado pelo Governo).

Este foi o grito dos jovens. Contra a precariedade do trabalho, contra a escassez de oportunidades, contra a exploração dos estágios e empregos mal remunerados, contra o desemprego prolongado, contra a incerteza. E que bonito foi ver que os jovens, tantas vezes acusados de desinteresse, se uniram por estas causas.

Para além dos jovens, outras pessoas marcaram presença - juntaram-se três gerações, movimentos políticos e sindicais, figuras de intervenção.

Os mais velhos falaram nas miseráveis reformas que recebem e nos cortes que elas poderão sofrer. Os pais da Geração à Rasca mostraram-se preocupados com o futuro dos filhos. Até os professores e os clientes do BPP aproveitaram a maré de contestação. Os Homens da Luta foram os protagonistas em Lisboa; Fernando Tordo, Rui Veloso e Vitorino cantaram temas de intervenção e até Joana Amaral Dias gritou pela união do povo.

Apesar de ter sido notável a participação em todo o país, parece-me exagerado que se fale em algo semelhante ao 25 de Abril, como se ouviu em alguns comentários. Mas este dia 12 de Março e a vitória dos Homens da Luta no Festival da Canção são sintomas do descontentamento social em que o país está mergulhado - estamos todos à rasca e não há como continuar a ignorar isso. Com juros a 8% (ainda se lembram do limite de 7% do ministro das Finanças?), mais cortes à vista, uma possível crise política, preços de alimentos a aumentar...

Esperamos que este banho de realidade não deixe incólume a classe política. Esperamos também que não seja tomado como outra brincadeira de Carnaval.

29 janeiro 2011

Tunísica, Egipto e as redes sociais

"Mas a força impressionante das ideias soube sobrepor-se a tanta adversidade e, hoje em dia, a liberdade de imprensa é algo, se bem que precário, certamente muito ampliado em numerosos países nos quais a democracia formal conseguiu triunfar sobre a arbitrariedade a ditadura."

Juan Cébrian escrevia assim em 1997, sobre a invenção da imprensa por Guttenberg. Em 2011, temos muito presente um bom exemplo da força das ideias.

Ao ler isto lembrei-me da liberdade de expressão, mais do que a de imprensa, e do seu papel na revolta das populações da Tunísia e do Egipto. O poder da palavra traz consigo a liberdade. Vimo-lo nos primórdios da imprensa, com os livros que fizeram questionar os dogmas da altura; vimo-lo com as músicas passadas na rádio na madrugada de 25 de Abril de 1974, que deram sinal às forças a postos; vemo-lo agora com as palavras de ordem espalhadas nas redes sociais, que mobilizaram a acção contra os governos tiranos e que, segundo se diz, podem inspirar outros países a fazer o mesmo.

23 janeiro 2011

Dia de ir às urnas

Tem sido, até agora, vergonhoso.

Se a taxa de abstenção já se previa mais elevada do que o normal devido ao descontentamento da população, imagino que será ainda maior graças aos entraves ao voto. Vamos por partes.

De manhã, algumas assembleias de voto não abriram. Em protesto por razões legítimas algumas populações tomaram os locais de voto, fecharam-nos, e impediram quem queria de exercer o seu direito ao voto. Isto parece-me um atentado à liberdade. Apelar à abstenção não me choca, embora não esperasse tanta mobilização nesse sentido. Mas impedir o acesso às urnas vai para além do direito a manifestar opinião - entra em confronto com o direito de exercer a escolha eleitoral.

Digo isto consciente de que outras alternativas a estas acções que tiveram lugar em alguns concelhos do país fariam passar a mesma mensagem, de forma bem mais democrática.

Depois, os problemas com a identificação dos eleitores. Já se sabia que o Cartão do Cidadão traz o problema dos códigos de acesso e dos dispositivos necessários para fazer a sua leitura. Já se sabia que o país ainda não está adaptado a este novo sistema - eu, como muitas pessoas, continuo a desculpar-me quando preencho algum impresso por o meu Cartão do Cidadão não ter data nem local de emissão. Esta falta de visão levou, certamente, a que muitas pessoas deixassem de votar.

Ao que parece era possível obter o número de eleitor e o local de voto através de uma linha telefónica (impedida sempre que tentei ligar para lá), de um serviço de mensagens (ainda estou à espera das duas respostas) e de dois portais online (só num deles consegui os meus dados após algumas horas de tentativas).

Parece-me que, a antecipar estas questões, os meios de comunicação podiam ter dado alguns conselhos nos últimos dias da campanha para melhor preparar os eleitores. Do que vi,  só hoje a SIC Notícias alertou para a falta dos números de eleitor e indicou as plataformas onde estes podem ser consultados. Não afirmo que tenha sido a tendência geral, mas só se ouviu falar do frio e, graças a Deus que está, ou os telejornais não teriam mais nada para dizer ontem.

Os órgãos responsáveis falharam na preparação destas eleições. O ministro da Administração Interna já adiantou a possibilidade de repetir o acto eleitoral em algumas freguesias, na próxima terça-feira. Parece que estas eleições feitas em cima do joelho não têm fim, seguidas de uma campanha que se arrastou penosamente por umas semanas de discussão política morna.

10 janeiro 2011

Cavaco, o Action Man



O senhor presidente deu, no passado fim-de-semana, mostra da sua jovialidade. Com o arranque oficial da campanha bebeu uns quantos Red Bull e, cheio de energia, subiu ao tejadilho do carro.

Será que andou a ensaiar a manobra ou, espontaneamente, sentiu-se inspirado pelo apoio da populaça?

De qualquer forma, fez-me lembrar a sessão fotográfica de Vladimir Putin no Verão de 2009. Ele nadava, ele andava a cavalo, ele trepava árvores, ele fazia fogueiras - um supra-sumo, um Action Man da política.


Enquanto Cavaco Silva se ficar pelos carros, tudo bem.