24 abril 2010

A importância de subir a uma mesa


Ando de comboio quase todos os dias. Quem conhece a linha de Cascais sabe que é um exercício relaxante (um privilégio até) poder ver a paisagem que se estende até ao Cais do Sodré, em meia hora de caminho. Tenho um lugar cativo neste comboio. De costas para o destino, é o lugar de onde se vêem todos os quadros que vão surgindo por uma ampla janela, às vezes rabiscada. Há um de que gosto particularmente e que me obriga a desviar o olhar das muitas actividades que me ocupam durante estas viagens diárias.

Um destes dias o meu lugar estava ocupado. Acabei por me atirar contrariada para um banco virado para Lisboa, à janela. Quando passei pelo quadro do costume, reparei num sem-número de pormenores para os quais nunca antes tinha olhado. Como um espelho da fotografia mental que tiro sempre que passo por ali, mas diferente no reflexo obtido.

Como são propícias a reflexões as idas e regressos nesta linha de comboio, fiquei a pensar na importância de olhar a vida através de ângulos diferentes. Atrevermo-nos a espreitar por outro lado e descobrir, maravilhados, uma visão surpreendente.

Lembrei-me de um filme de que gosto muito e de uma cena em particular.


Carpe diem, fellows.

23 abril 2010

Plagiar



Até certo ponto, fixar uma ideia alheia de que se gostou é algo lisonjeador. É sinónimo de reconhecimento, de sucesso. Até este ponto, não é plágio. É inspiração. Mas quando tal inspiração apenas conduz imaginações mais escassas à cópia, é vergonhoso.

Penso que os estudantes do Ensino Superior devem estar (eu estou) particularmente estupefactos com esta situação. Uma professora que terá plagiado parte da sua tese de doutoramento, criando um estatuto que não merece, é simplesmente ultrajante para o universo académico (partindo do princípio de que se trata realmente de plágio, mas aguardando as conclusões da investigação).

É grave plagiar o pensamento. Especialmente, o pensamento teórico de individualidades reconhecidas em áreas de estudo, e leccionar essas teorias como se flutuassem directamente da mente ardilosa de um professor que arquitecta a melhor forma de elevar o seu nome.

Para além de que não é uma atitude muito inteligente, uma vez que as teses costumam ser publicadas e, mesmo não o sendo, hoje nada escapa ao poder da Internet e de softwares especialmente desenhados para desvendar estas situações.

Ficamos à espera de saber se é ou não é. Mas, neste país, muitas coisas (e mais graves) ficam, frequentemente, por provar.

16 abril 2010

Manso é a tua tia, pá


Já não é a primeira vez que o nosso ilustre primeiro-ministro nos presenteia com respostas, no mínimo, inesperadas. Desta vez, saíu-lhe uma à criança da primária, muito na lógica do "quem diz é quem é". Meteu ao barulho familiares dos deputados do Parlamento que nada têm a haver com os debates quinzenais ou com as avultadas remunerações dos gestores públicos.

O comentário de Francisco Louçã não lhe agradou. "De intervenção em intervenção vai ficando um pouco mais manso". Vai daí, nada mais lógico que disparar um "manso é a tua tia, pá". Uma frase que traz ao debate não só uma pitada de infantilidade, como também um Sócrates brejeiro de quem já tínhamos saudades.

Mas coitado do primeiro-ministro. Irritou-se, pois é chato estar constantemente a responder aos ataques dos deputados. Com o microfone desligado julgou que ninguém perceberia e pronto, saiu-se com esta. Atrevo-me a dizer que supera claramente um "por um país mais pobre" e o já clássico "porreiro, pá".

Acontece aos melhores. Até Joe Biden pensou que não se perceberia o "this is a big fucking deal" que atirou a Barack Obama, a celebrar a reforma da saúde nos Estados Unidos.

O que também já não é surpresa é a fixação do público por estes episódios, alimentada pela comunicação social. O que se concluiu em termos políticos do debate de hoje? Não sei, mas sei que o Sócrates se saiu com uma muita gira.