26 fevereiro 2013

O trovador de patilhas (um Jagger do cristianismo)

"Este é um disco sobre «a voz». Não sobre Frank «the voice» Sinatra, embora o galante mafioso também compareça, transformado em forma verbal; trata-se antes de uma defesa do falar, do dizer, do cantar. A música é um «som cantado», lembra Samuel Úria, mas é mais que isso: é um testemunho. Por isso, não há cá silêncios de ouro, nem silêncio que se vai cantar o fado. Úria garante: «Se não falas irão cantar / Pedras Rolantes», juntando assim no mesmo verso Jesus de Nazaré e Mick Jagger. Tal como Cristo (e, vá, os Stones), Úria gosta de trazer a espada, espalhar a boa nova é também espalhar um génio, às vezes um mau-génio, sem o qual não se fazem coisas boas. Daí que ele reclame a dignidade de uma figura malquista, o «espalha-brasas». É isso que o nosso trovador de patilhas quer, espalhar brasas, não ficar mudo e quedo mas ir dizendo coisas, ou, quem sabe, ir prega-las [com «é»] e prega-las num portão, como esse Jagger do cristianismo, Lutero.

Pregar e pregar [com «é] vêm (e vêem) a propósito, porque este álbum (ainda se diz assim?) está cheio de jogos de linguagem, homofonias, rimas inesperadas, aventuras verbais. Uma canção parece mesmo inteiramente construída em jogos de som: chama-se «Forasteiro», embora um forasteiro não compreenda todas estas subtilezas da língua portuguesa, tal como não se ri com «O Pátio das Cantigas». Úria faz de tudo um pouco: brinca com a polissemia de «precipitado» e de «rotunda» («a vida é rotunda», tal como as autarquias); desconstrói provérbios (“um mal menor é muito”); recupera palavras castiças como «lingote» e «calçadeira»; alegoriza mais o atletismo do que um quarto classificado: “Duplas falsas partidas / São motins contra quem / Usa pólvora seca / Pra fazer-nos correr”.

Os jogos de linguagem podem ser um ATL, mas também podem ter a severidade moral de quem conhece mais do que «sete tipos de ambiguidade» (William Empson, vão ao Google). Porque embora este disco apresente uma doçura que está musicalmente distante do «panque roque» de que Úria descende, muitas das sentenças (notem a polissemia) sussurradas por cima de guitarras acústicas são agrestes, apesar dos coros amenos e dos arranjos delicados. Há, de resto, uma certa impetuosidade recalcada, e as guitarras, vez por outra, zangam-se, como se fossem o Doutor Estranhoamor que não controla o braço, que aqui, felizmente, não é estendido mas alevantado. O ímpeto simboliza a canção enquanto profecia. Úria habita a «torre da canção», referência a um mestre de apocalipses brandos, o Cohen, obviamente; e a canção, como sabia o Cohen (e Salomão, uns anitos antes) é uma torre onde se sobe devagarinho e de onde se cai a pique.

Em «O Grande Medo do Pequeno Mundo», a canção é uma exortação. «Nu que queres tu / Senão estar roto?», diz um verso especialmente áspero, contra os instalados na infelicidade, os que vivem acima das suas infelicidades. E os orgulhosos? Úria também não os poupa: «um homem só não chora porque não consegue» (a defesa do feminino neste álbum é um bom combate pela igualdade de género, e não faz género com isso). Bem-aventurados são os homens honrados, como «Armelim de Jesus», nessa canção-tributo a um bom desconhecido que é ainda mais espantosa por ser capaz de elogiar um «homem honrado» sem ironias escarninhas. Não tenhais medo, diz Úria, fazendo eco, (desculpa, Samuel) de um bispo de Roma. O mundo é «pequeno» para tanto medo, sobretudo o medo de fazer má figura.

Mas como é que reagimos? Fico a pensar o que será a «pancada na cabeça durante a peça Rua Gagarin de Gregory Burke» que dá origem a uma das canções deste disco. Não vi o espetáculo, não sei se há uma pancada na cabeça em cena (a peça evoca o declínio do socialismo na Escócia), ou se Úria, ou um outro espectador, levou um pancada na cabeça durante a representação, ou se uma «pancada na cabeça» é apenas uma coisa que nos acontece e ver certas coisas que de repente fazem sentido e nos fazem achar, como o narrador da canção, que há mais remédios do que males. Essa «pancada na cabeça» pode ser uma mudança súbita, um «acontecimento» que muda tudo, como a Ressurreição ou o Blonde on Blonde; mas também pode ser uma continuidade, um estado de fortaleza contra o medo e a pequenez do mundo. Samuel Úria, que com «Barbarella e Barba Rala» escreveu a mais sublime canção de amor triste da sua geração sem nunca ter tido um desgosto amoroso (cfr. conversa com o autor desta nota), escreve agora o melhor poema conjugal desde, talvez, William Carlos Williams, que dedicou à mulher com quem estava casado há quarenta anos Asphodel, That Greeny Flower, texto que só não é mais conhecido em português porque Williams escolheu uma planta ornamental que em português lamentavelmente se chama «asfódelo». A canção «Eu Seguro» é sobre o terceiro dos quatro amores teorizados por C. S. Lewis [aqui explicitam-se citações, mas as canções têm-nas implícitas]. É o amor oblativo, que existe em «eros» e, se em casos contados, no casamento. Mas «Eu Seguro» também dá voz (cá está) a qualquer outro amor, a qualquer outra devoção e certeza: «Quando o tempo for remendo, / Cada passo um poço fundo / E esta cama em que dormimos / For muralha em que acordamos, / Eu seguro / E o meu braço estende a mão que embala o muro. // Quando o espanto for de medo, / O esperado for do mundo / E não for domado o espinho / Da carne que partilhamos, / Eu seguro. / O sustento é forte quando o intento é puro”. No amor, como noutras vozes que nos dão voz, o sustento é forte quando o intento é puro. E o mundo é pequeno, e o medo é grande, e, ainda assim seguramo-los, como um colchão aos trapezistas."

Pedro Mexia, sobre o novo disco de Samuel Úria.

Dá gosto ler coisas assim, bonitas.

Sem comentários:

Enviar um comentário