27 novembro 2013

Não, ele não pode ter dito isto


Qual austeridade. Afinal, a crise resolve-se de uma maneira muito mais simples.
Há uma solução simples [para os problemas que o país enfrenta] que as pessoas ainda não descobriram. Quando quiserem começar a resolver os problemas de Portugal, é fácil: tiramos o vermelho da bandeira e é tudo nosso.
Bruno de Carvalho, presidente do Sporting.
Passos, atenta nisto.

06 novembro 2013

Inocência


"Eu não gosto dele por amor. Falta daqui até aqui para gostar dele por amor."

Preocupações dos oito anos, à hora do recreio.

23 setembro 2013

Expectativas


O bolso do meu casaco 
Por

12 agosto 2013

It did happen

This photograph is my proof. There was that afternoon, when things were still good between us, and she embraced me, and we were so happy. It did happen, she did love me. Look see for yourself!"

Duane Michals, 1974

05 agosto 2013

Ao vosso encontro

O MUNDO PODE ESPERAR

Hoje sonhei que tinha ficado sozinho no mundo. E que de repente as lojas, as ruas, os estádios - mesmo em dias de jogos grandes - tinham ficado desertos. E assim, como sempre acontece, todos os semáforos ficaram intermitentes e os meus passos, que outrora foram mais uns no meio de tantos, ganharam um eco próprio de um homem que se prepara para dançar sevilhanas. Gostava pois que me imaginassem a descer a Avenida da Liberdade a ouvir unicamente os meus passos e a dança das folhas nos ramos das árvores. E olhar para tudo, como se a festa tivesse acabado e só restassem os copos espalhados pelo chão.


E perguntar-me: para onde terão ido todos? Porque raio me deixaram aqui sozinho? Ligo a televisão e não está ninguém a cantar, nem a dançar, nem a chorar por a vida ter sido madrasta. Ligo o rádio e nem uma música, nem uma voz a dizer as horas. Os jornais, um aglomerado de folhas em branco, sem títulos sensacionalistas e sem fotos que reconstituem crimes hediondos. Não se passava nada no mundo, como se de repente todos tivessem ido de férias e desligado os telemóveis. Tudo bem que ouço os meus passos a descer a Avenida da Liberdade - é muito agradável, muito prazeroso, sim - mas não ver uma saia curta o dia todo nem ver ninguém muito indignado a dizer que tudo isto é uma vergonha e que assim não pode ser faz- -me crer que nunca me adaptaria a uma ilha deserta. Assim, no meu sonho, também eu acabei por abandonar o mundo e ir ao vosso encontro.

Fernando Alvim
Publicado originalmente no ionline

06 junho 2013

Melancolia



A tristeza também é um vício, uma conchinha apetitosa, cheia de ecos.

Podemos sentir-nos mais relacionados com um estranho infinito, parecido com as palavras expansivas dos nossos poetas de adoração, e relacionarmo-nos mais com o universo do que com as pessoas.

JP Simões

24 maio 2013

Vampires smell nice



I found this at The American Book Center, in Amsterdam, where the staff write reviews about recommended books for customers to read.
Good one, Tiemen.

16 maio 2013

Engenho e arte

Outros em compasso de espera.


Licenciado en Periodismo
y un diploma de posgrado
que he traído aquí doblado,
por si usted lo quiere ver.

Formación complementaria:
Un curso online, que vi en Groupalia,
de Community Management.

Ya soy experto en twitter, facebook, pinterest,
LinkedIn y MySpace.

Experiencia profesional,
en una radio comarcal,
con contrato de becario,
por supuesto, sin cobrar.

Y así que no sea de lo mío,
también he hecho de comercial,
he trabajado en un callcenter,
y de cajera en Mediamark

En cuanto a idiomas le diré:
Tengo un buen nivel de inglés,
I used to fly with Ryanair.

Parlo anche Italiano,
Livello amore de verano,
y pillo algo de francés.

Soy el rey del Word,
del Excel y del Power Point.
También controlo el Photoshop.

No echen mano al monedero,
no vengo a pedir dinero.
Aunque quizá usted, un amigo o un familiar...

Necesita un periodista, guionista,
escritor o redactor,
músico compositor...

O quizá andan buscando un servicio más trivial.
También me sé arrodillar
y por un precio especial
hasta me dejo azotar.

Para más información,
siempre a su disposición,
mi perfil en Infojobs.

Por Enzo Vizcaíno// @henzovic
enzovizcaino@gmail.com

http://creiaqueeramosamigos.com/

18 março 2013

De olhos vidrados


Que pode uma criatura senão,
entre outras criaturas, amar?
Amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Carlos Drummond de Andrade

26 fevereiro 2013

O trovador de patilhas (um Jagger do cristianismo)

"Este é um disco sobre «a voz». Não sobre Frank «the voice» Sinatra, embora o galante mafioso também compareça, transformado em forma verbal; trata-se antes de uma defesa do falar, do dizer, do cantar. A música é um «som cantado», lembra Samuel Úria, mas é mais que isso: é um testemunho. Por isso, não há cá silêncios de ouro, nem silêncio que se vai cantar o fado. Úria garante: «Se não falas irão cantar / Pedras Rolantes», juntando assim no mesmo verso Jesus de Nazaré e Mick Jagger. Tal como Cristo (e, vá, os Stones), Úria gosta de trazer a espada, espalhar a boa nova é também espalhar um génio, às vezes um mau-génio, sem o qual não se fazem coisas boas. Daí que ele reclame a dignidade de uma figura malquista, o «espalha-brasas». É isso que o nosso trovador de patilhas quer, espalhar brasas, não ficar mudo e quedo mas ir dizendo coisas, ou, quem sabe, ir prega-las [com «é»] e prega-las num portão, como esse Jagger do cristianismo, Lutero.

Pregar e pregar [com «é] vêm (e vêem) a propósito, porque este álbum (ainda se diz assim?) está cheio de jogos de linguagem, homofonias, rimas inesperadas, aventuras verbais. Uma canção parece mesmo inteiramente construída em jogos de som: chama-se «Forasteiro», embora um forasteiro não compreenda todas estas subtilezas da língua portuguesa, tal como não se ri com «O Pátio das Cantigas». Úria faz de tudo um pouco: brinca com a polissemia de «precipitado» e de «rotunda» («a vida é rotunda», tal como as autarquias); desconstrói provérbios (“um mal menor é muito”); recupera palavras castiças como «lingote» e «calçadeira»; alegoriza mais o atletismo do que um quarto classificado: “Duplas falsas partidas / São motins contra quem / Usa pólvora seca / Pra fazer-nos correr”.

Os jogos de linguagem podem ser um ATL, mas também podem ter a severidade moral de quem conhece mais do que «sete tipos de ambiguidade» (William Empson, vão ao Google). Porque embora este disco apresente uma doçura que está musicalmente distante do «panque roque» de que Úria descende, muitas das sentenças (notem a polissemia) sussurradas por cima de guitarras acústicas são agrestes, apesar dos coros amenos e dos arranjos delicados. Há, de resto, uma certa impetuosidade recalcada, e as guitarras, vez por outra, zangam-se, como se fossem o Doutor Estranhoamor que não controla o braço, que aqui, felizmente, não é estendido mas alevantado. O ímpeto simboliza a canção enquanto profecia. Úria habita a «torre da canção», referência a um mestre de apocalipses brandos, o Cohen, obviamente; e a canção, como sabia o Cohen (e Salomão, uns anitos antes) é uma torre onde se sobe devagarinho e de onde se cai a pique.

Em «O Grande Medo do Pequeno Mundo», a canção é uma exortação. «Nu que queres tu / Senão estar roto?», diz um verso especialmente áspero, contra os instalados na infelicidade, os que vivem acima das suas infelicidades. E os orgulhosos? Úria também não os poupa: «um homem só não chora porque não consegue» (a defesa do feminino neste álbum é um bom combate pela igualdade de género, e não faz género com isso). Bem-aventurados são os homens honrados, como «Armelim de Jesus», nessa canção-tributo a um bom desconhecido que é ainda mais espantosa por ser capaz de elogiar um «homem honrado» sem ironias escarninhas. Não tenhais medo, diz Úria, fazendo eco, (desculpa, Samuel) de um bispo de Roma. O mundo é «pequeno» para tanto medo, sobretudo o medo de fazer má figura.

Mas como é que reagimos? Fico a pensar o que será a «pancada na cabeça durante a peça Rua Gagarin de Gregory Burke» que dá origem a uma das canções deste disco. Não vi o espetáculo, não sei se há uma pancada na cabeça em cena (a peça evoca o declínio do socialismo na Escócia), ou se Úria, ou um outro espectador, levou um pancada na cabeça durante a representação, ou se uma «pancada na cabeça» é apenas uma coisa que nos acontece e ver certas coisas que de repente fazem sentido e nos fazem achar, como o narrador da canção, que há mais remédios do que males. Essa «pancada na cabeça» pode ser uma mudança súbita, um «acontecimento» que muda tudo, como a Ressurreição ou o Blonde on Blonde; mas também pode ser uma continuidade, um estado de fortaleza contra o medo e a pequenez do mundo. Samuel Úria, que com «Barbarella e Barba Rala» escreveu a mais sublime canção de amor triste da sua geração sem nunca ter tido um desgosto amoroso (cfr. conversa com o autor desta nota), escreve agora o melhor poema conjugal desde, talvez, William Carlos Williams, que dedicou à mulher com quem estava casado há quarenta anos Asphodel, That Greeny Flower, texto que só não é mais conhecido em português porque Williams escolheu uma planta ornamental que em português lamentavelmente se chama «asfódelo». A canção «Eu Seguro» é sobre o terceiro dos quatro amores teorizados por C. S. Lewis [aqui explicitam-se citações, mas as canções têm-nas implícitas]. É o amor oblativo, que existe em «eros» e, se em casos contados, no casamento. Mas «Eu Seguro» também dá voz (cá está) a qualquer outro amor, a qualquer outra devoção e certeza: «Quando o tempo for remendo, / Cada passo um poço fundo / E esta cama em que dormimos / For muralha em que acordamos, / Eu seguro / E o meu braço estende a mão que embala o muro. // Quando o espanto for de medo, / O esperado for do mundo / E não for domado o espinho / Da carne que partilhamos, / Eu seguro. / O sustento é forte quando o intento é puro”. No amor, como noutras vozes que nos dão voz, o sustento é forte quando o intento é puro. E o mundo é pequeno, e o medo é grande, e, ainda assim seguramo-los, como um colchão aos trapezistas."

Pedro Mexia, sobre o novo disco de Samuel Úria.

Dá gosto ler coisas assim, bonitas.

31 janeiro 2013

Paperman


"Introducing a groundbreaking technique that seamlessly merges computer-generated and hand-drawn animation techniques, first-time director John Kahrs takes the art of animation in a bold new direction with the Oscar®-nominated short, "Paperman." Using a minimalist black-and-white style, the short follows the story of a lonely young man in mid-century New York City, whose destiny takes an unexpected turn after a chance meeting with a beautiful woman on his morning commute. Convinced the girl of his dreams is gone forever, he gets a second chance when he spots her in a skyscraper window across the avenue from his office. With only his heart, imagination and a stack of papers to get her attention, his efforts are no match for what the fates have in store for him. Created by a small, innovative team working at Walt Disney Animation Studios, "Paperman" pushes the animation medium in an exciting new direction."


Encontros furtuitos, no olhar da Disney.