Dawn.
31 dezembro 2013
27 novembro 2013
Não, ele não pode ter dito isto
Há uma solução simples [para os problemas que o país enfrenta] que as pessoas ainda não descobriram. Quando quiserem começar a resolver os problemas de Portugal, é fácil: tiramos o vermelho da bandeira e é tudo nosso.
Bruno de Carvalho, presidente do Sporting.
Passos, atenta nisto.
14 novembro 2013
Spots of the week
Um exercício numa aula: os sítios dos últimos sete dias.
E apesar de estar em movimento, há sempre uma parte que continua em compasso de espera.
13 novembro 2013
06 novembro 2013
23 setembro 2013
Expectativas
O bolso do meu casaco
Por Ricardo J. Rodrigues
"[A Sixto Rodriguez, mestre da guitarra e da arte do desprendimento]
Rapei o cabelo há dias. Pensava que estava a ficar calvo e decidi tomar ações radicais, melhor assumir-me careca de vez. Só que, ao submeter todo o crânio à passagem de um pente dois, percebi que afinal não tinha assim tantas falhas ou entradas. É agradável um tipo pensar que as coisas são piores do que são e depois deixar-se surpreender pela positiva. Podia lamentar o cabelo perdido, mas também aprecio a ideia de já não ter de gastar dinheiro em cera. Além de que é extremamente difícil andar bem despenteado todos os dias.
Sempre que vou viajar, e sobretudo se estou ansioso com a viagem, faço um esforço por baixar as expetativas. Há uns anos fiz o Transiberiano, dez mil quilómetros ferroviários entre Moscovo e Vladivostok, com uma incursão pela Mongólia. Quando entrei no comboio tinha a certeza de que aquela seria uma viagem épica, algo que me transformaria para sempre. Nada mais errado. É uma chatice passar um mês dentro de um comboio e é uma chatice ainda maior aturar a polícia russa, demasiado ciente da sua autoridade. Claro que conto o Transiberiano como uma grande experiência de vida, mas lembro-me do alívio que senti quando a viagem terminou – e sei que não a repetiria.
Isto eu aprendi: a ansiedade estraga-nos o esquema todo. Quando construímos uma narrativa e tentamos encaixar nela os pedaços de realidade que nos dão jeito, desfocamos a atenção das coisas essenciais. Acontece com o jornalismo, com as viagens e com os cortes de cabelo. E acontece com as relações. Porra, acontece muito com as relações.
Os maiores amores da minha vida nasceram sempre quando menos os esperava e morreram sempre por causa da ansiedade. É trabalho para uma vida inteira, aprender a deixar uma relação fluir. Mas acredito que aquilo que devemos colocar alto é a fasquia da relação que queremos, não a expetativa do que queremos que a relação seja. E, quando conseguimos fazê-lo, é como se vestíssemos um casaco que não usamos há muitos meses e encontrássemos uma nota de vinte paus no bolso. Mas melhor."
É tudo uma questão de expectativas.
Rapei o cabelo há dias. Pensava que estava a ficar calvo e decidi tomar ações radicais, melhor assumir-me careca de vez. Só que, ao submeter todo o crânio à passagem de um pente dois, percebi que afinal não tinha assim tantas falhas ou entradas. É agradável um tipo pensar que as coisas são piores do que são e depois deixar-se surpreender pela positiva. Podia lamentar o cabelo perdido, mas também aprecio a ideia de já não ter de gastar dinheiro em cera. Além de que é extremamente difícil andar bem despenteado todos os dias.
Sempre que vou viajar, e sobretudo se estou ansioso com a viagem, faço um esforço por baixar as expetativas. Há uns anos fiz o Transiberiano, dez mil quilómetros ferroviários entre Moscovo e Vladivostok, com uma incursão pela Mongólia. Quando entrei no comboio tinha a certeza de que aquela seria uma viagem épica, algo que me transformaria para sempre. Nada mais errado. É uma chatice passar um mês dentro de um comboio e é uma chatice ainda maior aturar a polícia russa, demasiado ciente da sua autoridade. Claro que conto o Transiberiano como uma grande experiência de vida, mas lembro-me do alívio que senti quando a viagem terminou – e sei que não a repetiria.
Isto eu aprendi: a ansiedade estraga-nos o esquema todo. Quando construímos uma narrativa e tentamos encaixar nela os pedaços de realidade que nos dão jeito, desfocamos a atenção das coisas essenciais. Acontece com o jornalismo, com as viagens e com os cortes de cabelo. E acontece com as relações. Porra, acontece muito com as relações.
Os maiores amores da minha vida nasceram sempre quando menos os esperava e morreram sempre por causa da ansiedade. É trabalho para uma vida inteira, aprender a deixar uma relação fluir. Mas acredito que aquilo que devemos colocar alto é a fasquia da relação que queremos, não a expetativa do que queremos que a relação seja. E, quando conseguimos fazê-lo, é como se vestíssemos um casaco que não usamos há muitos meses e encontrássemos uma nota de vinte paus no bolso. Mas melhor."
É tudo uma questão de expectativas.
12 agosto 2013
05 agosto 2013
Ao vosso encontro
O MUNDO PODE ESPERAR
Hoje sonhei que tinha ficado sozinho no mundo. E que de repente as lojas, as ruas, os estádios - mesmo em dias de jogos grandes - tinham ficado desertos. E assim, como sempre acontece, todos os semáforos ficaram intermitentes e os meus passos, que outrora foram mais uns no meio de tantos, ganharam um eco próprio de um homem que se prepara para dançar sevilhanas. Gostava pois que me imaginassem a descer a Avenida da Liberdade a ouvir unicamente os meus passos e a dança das folhas nos ramos das árvores. E olhar para tudo, como se a festa tivesse acabado e só restassem os copos espalhados pelo chão.
E perguntar-me: para onde terão ido todos? Porque raio me deixaram aqui sozinho? Ligo a televisão e não está ninguém a cantar, nem a dançar, nem a chorar por a vida ter sido madrasta. Ligo o rádio e nem uma música, nem uma voz a dizer as horas. Os jornais, um aglomerado de folhas em branco, sem títulos sensacionalistas e sem fotos que reconstituem crimes hediondos. Não se passava nada no mundo, como se de repente todos tivessem ido de férias e desligado os telemóveis. Tudo bem que ouço os meus passos a descer a Avenida da Liberdade - é muito agradável, muito prazeroso, sim - mas não ver uma saia curta o dia todo nem ver ninguém muito indignado a dizer que tudo isto é uma vergonha e que assim não pode ser faz- -me crer que nunca me adaptaria a uma ilha deserta. Assim, no meu sonho, também eu acabei por abandonar o mundo e ir ao vosso encontro.
Hoje sonhei que tinha ficado sozinho no mundo. E que de repente as lojas, as ruas, os estádios - mesmo em dias de jogos grandes - tinham ficado desertos. E assim, como sempre acontece, todos os semáforos ficaram intermitentes e os meus passos, que outrora foram mais uns no meio de tantos, ganharam um eco próprio de um homem que se prepara para dançar sevilhanas. Gostava pois que me imaginassem a descer a Avenida da Liberdade a ouvir unicamente os meus passos e a dança das folhas nos ramos das árvores. E olhar para tudo, como se a festa tivesse acabado e só restassem os copos espalhados pelo chão.
E perguntar-me: para onde terão ido todos? Porque raio me deixaram aqui sozinho? Ligo a televisão e não está ninguém a cantar, nem a dançar, nem a chorar por a vida ter sido madrasta. Ligo o rádio e nem uma música, nem uma voz a dizer as horas. Os jornais, um aglomerado de folhas em branco, sem títulos sensacionalistas e sem fotos que reconstituem crimes hediondos. Não se passava nada no mundo, como se de repente todos tivessem ido de férias e desligado os telemóveis. Tudo bem que ouço os meus passos a descer a Avenida da Liberdade - é muito agradável, muito prazeroso, sim - mas não ver uma saia curta o dia todo nem ver ninguém muito indignado a dizer que tudo isto é uma vergonha e que assim não pode ser faz- -me crer que nunca me adaptaria a uma ilha deserta. Assim, no meu sonho, também eu acabei por abandonar o mundo e ir ao vosso encontro.
24 julho 2013
09 julho 2013
06 junho 2013
02 junho 2013
29 maio 2013
26 maio 2013
24 maio 2013
16 maio 2013
Engenho e arte
Outros em compasso de espera.
Licenciado en Periodismo
y un diploma de posgrado
que he traído aquí doblado,
por si usted lo quiere ver.
Formación complementaria:
Un curso online, que vi en Groupalia,
de Community Management.
Ya soy experto en twitter, facebook, pinterest,
LinkedIn y MySpace.
Experiencia profesional,
en una radio comarcal,
con contrato de becario,
por supuesto, sin cobrar.
Y así que no sea de lo mío,
también he hecho de comercial,
he trabajado en un callcenter,
y de cajera en Mediamark
En cuanto a idiomas le diré:
Tengo un buen nivel de inglés,
I used to fly with Ryanair.
Parlo anche Italiano,
Livello amore de verano,
y pillo algo de francés.
Soy el rey del Word,
del Excel y del Power Point.
También controlo el Photoshop.
No echen mano al monedero,
no vengo a pedir dinero.
Aunque quizá usted, un amigo o un familiar...
Necesita un periodista, guionista,
escritor o redactor,
músico compositor...
O quizá andan buscando un servicio más trivial.
También me sé arrodillar
y por un precio especial
hasta me dejo azotar.
Para más información,
siempre a su disposición,
mi perfil en Infojobs.
Por Enzo Vizcaíno// @henzovic
enzovizcaino@gmail.com
http://creiaqueeramosamigos.com/
15 maio 2013
14 maio 2013
18 março 2013
26 fevereiro 2013
O trovador de patilhas (um Jagger do cristianismo)
"Este é um disco sobre «a voz». Não sobre Frank «the voice» Sinatra, embora o galante mafioso também compareça, transformado em forma verbal; trata-se antes de uma defesa do falar, do dizer, do cantar. A música é um «som cantado», lembra Samuel Úria, mas é mais que isso: é um testemunho. Por isso, não há cá silêncios de ouro, nem silêncio que se vai cantar o fado. Úria garante: «Se não falas irão cantar / Pedras Rolantes», juntando assim no mesmo verso Jesus de Nazaré e Mick Jagger. Tal como Cristo (e, vá, os Stones), Úria gosta de trazer a espada, espalhar a boa nova é também espalhar um génio, às vezes um mau-génio, sem o qual não se fazem coisas boas. Daí que ele reclame a dignidade de uma figura malquista, o «espalha-brasas». É isso que o nosso trovador de patilhas quer, espalhar brasas, não ficar mudo e quedo mas ir dizendo coisas, ou, quem sabe, ir prega-las [com «é»] e prega-las num portão, como esse Jagger do cristianismo, Lutero.
Pregar e pregar [com «é] vêm (e vêem) a propósito, porque este álbum (ainda se diz assim?) está cheio de jogos de linguagem, homofonias, rimas inesperadas, aventuras verbais. Uma canção parece mesmo inteiramente construída em jogos de som: chama-se «Forasteiro», embora um forasteiro não compreenda todas estas subtilezas da língua portuguesa, tal como não se ri com «O Pátio das Cantigas». Úria faz de tudo um pouco: brinca com a polissemia de «precipitado» e de «rotunda» («a vida é rotunda», tal como as autarquias); desconstrói provérbios (“um mal menor é muito”); recupera palavras castiças como «lingote» e «calçadeira»; alegoriza mais o atletismo do que um quarto classificado: “Duplas falsas partidas / São motins contra quem / Usa pólvora seca / Pra fazer-nos correr”.
Os jogos de linguagem podem ser um ATL, mas também podem ter a severidade moral de quem conhece mais do que «sete tipos de ambiguidade» (William Empson, vão ao Google). Porque embora este disco apresente uma doçura que está musicalmente distante do «panque roque» de que Úria descende, muitas das sentenças (notem a polissemia) sussurradas por cima de guitarras acústicas são agrestes, apesar dos coros amenos e dos arranjos delicados. Há, de resto, uma certa impetuosidade recalcada, e as guitarras, vez por outra, zangam-se, como se fossem o Doutor Estranhoamor que não controla o braço, que aqui, felizmente, não é estendido mas alevantado. O ímpeto simboliza a canção enquanto profecia. Úria habita a «torre da canção», referência a um mestre de apocalipses brandos, o Cohen, obviamente; e a canção, como sabia o Cohen (e Salomão, uns anitos antes) é uma torre onde se sobe devagarinho e de onde se cai a pique.
Em «O Grande Medo do Pequeno Mundo», a canção é uma exortação. «Nu que queres tu / Senão estar roto?», diz um verso especialmente áspero, contra os instalados na infelicidade, os que vivem acima das suas infelicidades. E os orgulhosos? Úria também não os poupa: «um homem só não chora porque não consegue» (a defesa do feminino neste álbum é um bom combate pela igualdade de género, e não faz género com isso). Bem-aventurados são os homens honrados, como «Armelim de Jesus», nessa canção-tributo a um bom desconhecido que é ainda mais espantosa por ser capaz de elogiar um «homem honrado» sem ironias escarninhas. Não tenhais medo, diz Úria, fazendo eco, (desculpa, Samuel) de um bispo de Roma. O mundo é «pequeno» para tanto medo, sobretudo o medo de fazer má figura.
Mas como é que reagimos? Fico a pensar o que será a «pancada na cabeça durante a peça Rua Gagarin de Gregory Burke» que dá origem a uma das canções deste disco. Não vi o espetáculo, não sei se há uma pancada na cabeça em cena (a peça evoca o declínio do socialismo na Escócia), ou se Úria, ou um outro espectador, levou um pancada na cabeça durante a representação, ou se uma «pancada na cabeça» é apenas uma coisa que nos acontece e ver certas coisas que de repente fazem sentido e nos fazem achar, como o narrador da canção, que há mais remédios do que males. Essa «pancada na cabeça» pode ser uma mudança súbita, um «acontecimento» que muda tudo, como a Ressurreição ou o Blonde on Blonde; mas também pode ser uma continuidade, um estado de fortaleza contra o medo e a pequenez do mundo. Samuel Úria, que com «Barbarella e Barba Rala» escreveu a mais sublime canção de amor triste da sua geração sem nunca ter tido um desgosto amoroso (cfr. conversa com o autor desta nota), escreve agora o melhor poema conjugal desde, talvez, William Carlos Williams, que dedicou à mulher com quem estava casado há quarenta anos Asphodel, That Greeny Flower, texto que só não é mais conhecido em português porque Williams escolheu uma planta ornamental que em português lamentavelmente se chama «asfódelo». A canção «Eu Seguro» é sobre o terceiro dos quatro amores teorizados por C. S. Lewis [aqui explicitam-se citações, mas as canções têm-nas implícitas]. É o amor oblativo, que existe em «eros» e, se em casos contados, no casamento. Mas «Eu Seguro» também dá voz (cá está) a qualquer outro amor, a qualquer outra devoção e certeza: «Quando o tempo for remendo, / Cada passo um poço fundo / E esta cama em que dormimos / For muralha em que acordamos, / Eu seguro / E o meu braço estende a mão que embala o muro. // Quando o espanto for de medo, / O esperado for do mundo / E não for domado o espinho / Da carne que partilhamos, / Eu seguro. / O sustento é forte quando o intento é puro”. No amor, como noutras vozes que nos dão voz, o sustento é forte quando o intento é puro. E o mundo é pequeno, e o medo é grande, e, ainda assim seguramo-los, como um colchão aos trapezistas."
Pedro Mexia, sobre o novo disco de Samuel Úria.
Dá gosto ler coisas assim, bonitas.
Pregar e pregar [com «é] vêm (e vêem) a propósito, porque este álbum (ainda se diz assim?) está cheio de jogos de linguagem, homofonias, rimas inesperadas, aventuras verbais. Uma canção parece mesmo inteiramente construída em jogos de som: chama-se «Forasteiro», embora um forasteiro não compreenda todas estas subtilezas da língua portuguesa, tal como não se ri com «O Pátio das Cantigas». Úria faz de tudo um pouco: brinca com a polissemia de «precipitado» e de «rotunda» («a vida é rotunda», tal como as autarquias); desconstrói provérbios (“um mal menor é muito”); recupera palavras castiças como «lingote» e «calçadeira»; alegoriza mais o atletismo do que um quarto classificado: “Duplas falsas partidas / São motins contra quem / Usa pólvora seca / Pra fazer-nos correr”.
Os jogos de linguagem podem ser um ATL, mas também podem ter a severidade moral de quem conhece mais do que «sete tipos de ambiguidade» (William Empson, vão ao Google). Porque embora este disco apresente uma doçura que está musicalmente distante do «panque roque» de que Úria descende, muitas das sentenças (notem a polissemia) sussurradas por cima de guitarras acústicas são agrestes, apesar dos coros amenos e dos arranjos delicados. Há, de resto, uma certa impetuosidade recalcada, e as guitarras, vez por outra, zangam-se, como se fossem o Doutor Estranhoamor que não controla o braço, que aqui, felizmente, não é estendido mas alevantado. O ímpeto simboliza a canção enquanto profecia. Úria habita a «torre da canção», referência a um mestre de apocalipses brandos, o Cohen, obviamente; e a canção, como sabia o Cohen (e Salomão, uns anitos antes) é uma torre onde se sobe devagarinho e de onde se cai a pique.
Em «O Grande Medo do Pequeno Mundo», a canção é uma exortação. «Nu que queres tu / Senão estar roto?», diz um verso especialmente áspero, contra os instalados na infelicidade, os que vivem acima das suas infelicidades. E os orgulhosos? Úria também não os poupa: «um homem só não chora porque não consegue» (a defesa do feminino neste álbum é um bom combate pela igualdade de género, e não faz género com isso). Bem-aventurados são os homens honrados, como «Armelim de Jesus», nessa canção-tributo a um bom desconhecido que é ainda mais espantosa por ser capaz de elogiar um «homem honrado» sem ironias escarninhas. Não tenhais medo, diz Úria, fazendo eco, (desculpa, Samuel) de um bispo de Roma. O mundo é «pequeno» para tanto medo, sobretudo o medo de fazer má figura.
Mas como é que reagimos? Fico a pensar o que será a «pancada na cabeça durante a peça Rua Gagarin de Gregory Burke» que dá origem a uma das canções deste disco. Não vi o espetáculo, não sei se há uma pancada na cabeça em cena (a peça evoca o declínio do socialismo na Escócia), ou se Úria, ou um outro espectador, levou um pancada na cabeça durante a representação, ou se uma «pancada na cabeça» é apenas uma coisa que nos acontece e ver certas coisas que de repente fazem sentido e nos fazem achar, como o narrador da canção, que há mais remédios do que males. Essa «pancada na cabeça» pode ser uma mudança súbita, um «acontecimento» que muda tudo, como a Ressurreição ou o Blonde on Blonde; mas também pode ser uma continuidade, um estado de fortaleza contra o medo e a pequenez do mundo. Samuel Úria, que com «Barbarella e Barba Rala» escreveu a mais sublime canção de amor triste da sua geração sem nunca ter tido um desgosto amoroso (cfr. conversa com o autor desta nota), escreve agora o melhor poema conjugal desde, talvez, William Carlos Williams, que dedicou à mulher com quem estava casado há quarenta anos Asphodel, That Greeny Flower, texto que só não é mais conhecido em português porque Williams escolheu uma planta ornamental que em português lamentavelmente se chama «asfódelo». A canção «Eu Seguro» é sobre o terceiro dos quatro amores teorizados por C. S. Lewis [aqui explicitam-se citações, mas as canções têm-nas implícitas]. É o amor oblativo, que existe em «eros» e, se em casos contados, no casamento. Mas «Eu Seguro» também dá voz (cá está) a qualquer outro amor, a qualquer outra devoção e certeza: «Quando o tempo for remendo, / Cada passo um poço fundo / E esta cama em que dormimos / For muralha em que acordamos, / Eu seguro / E o meu braço estende a mão que embala o muro. // Quando o espanto for de medo, / O esperado for do mundo / E não for domado o espinho / Da carne que partilhamos, / Eu seguro. / O sustento é forte quando o intento é puro”. No amor, como noutras vozes que nos dão voz, o sustento é forte quando o intento é puro. E o mundo é pequeno, e o medo é grande, e, ainda assim seguramo-los, como um colchão aos trapezistas."
Pedro Mexia, sobre o novo disco de Samuel Úria.
Dá gosto ler coisas assim, bonitas.
31 janeiro 2013
Paperman
"Introducing a groundbreaking technique that seamlessly merges computer-generated and hand-drawn animation techniques, first-time director John Kahrs takes the art of animation in a bold new direction with the Oscar®-nominated short, "Paperman." Using a minimalist black-and-white style, the short follows the story of a lonely young man in mid-century New York City, whose destiny takes an unexpected turn after a chance meeting with a beautiful woman on his morning commute. Convinced the girl of his dreams is gone forever, he gets a second chance when he spots her in a skyscraper window across the avenue from his office. With only his heart, imagination and a stack of papers to get her attention, his efforts are no match for what the fates have in store for him. Created by a small, innovative team working at Walt Disney Animation Studios, "Paperman" pushes the animation medium in an exciting new direction."
Encontros furtuitos, no olhar da Disney.
10 janeiro 2013
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