20 janeiro 2012

He sure can sing...

...but can he win?

Obama cantou um verso da música Let's Stay Together, de Al Green, porque o cantor estava na audiência de uma angariação de fundos no Apollo Theater, em Nova Iorque. E surpreendeu-me, até canta bem. Cá para mim, carisma é meio caminho andado para a vitória e disso Barack Obama tem muito.


Obama, cantas bem mas não tão bem quanto o nosso Primeiro.

16 janeiro 2012

Folhetos baixos de Janeiro a Janeiro


A administração da Jerónimo Martins achou por bem distribuir aos clientes do Pingo Doce este folheto. Até aqui, tudo bem. O que não está muito bem é o conteúdo que, a desmentir muito, acaba por não afirmar nada. Vamos por partes.

1. "Em nome dos mais de 25 mil colaboradores que o Pingo Doce emprega em Portugal..."
Tradução: que bonzinhos que somos, damos emprego a tantas pessoas, não merecemos esta infâmia que se abateu sobre nós. Isto do emprego, podendo ser verdade, é a bandeira do Pingo Doce, o que já cansa. Isso e os preços baixos de Janeiro a Janeiro.

2. "...notícias e comentários (...) que contêm graves inverdades"
Pelo meu dicionário, inverdades são mentiras. Mas pronto, inverdades e paninhos quentes ficam melhor na fotografia. No folheto.

3. "...pelo respeito e consideração que os nossos clientes nos merecem enquanto nossa principal razão de ser..."
E eu que jurava que a principal razão de ser do Pingo Doce era o retalho.

4. "Tudo o que ouvir ou ler em sentido contrário ao que aqui afirmamos pode considerar, sem margem para qualquer dúvida, falso e/ou demagógico."
Ponto final. Todo o que não está comigo, está contra mim. Não há cá Suíças.

5. "2012 não vai ser um ano fácil, mas acredite que tudo faremos continuar ao seu lado..."
A rematar, e como não podia faltar, um bocadinho de crise e dificuldades.

Por moralismos e desmentidos assertivos, este folheto visa convencer pessoas que não se perguntam "então se não é isto, o que é?". E nesse objectivo deve estar a ter sucesso, porque a desinformação é sempre a escolha mais favorável nestas situações em que a opinião pública é (facilmente) manipulada.

Este folheto foi distribuído numa loja Pingo Doce local.

12 janeiro 2012

Uma decisão

Eu tinha uns 15 anos e uma decisão fresca. Era a altura dos testes psicotécnicos e de decidir o que havia de fazer da vida. (Aos 15 anos não podemos decidir o que fazer da vida. Mas é essa a percepção que Portugal tem do ensino superior - as licenciaturas são cursos técnicos que determinam a carreira profissional. Direito faz advogados. Filosofia faz professores.) As ciências exactas nunca me cativaram. Iria para Humanidades.

A pouco surgiu-me uma ideia, que se tornou uma paixão. Não me via a fazer nada que não fosse escrever. Surgiu-me o jornalismo.(Comunicação social faz desempregados.)

Cresceu-me a nobreza da profissão. E, sem experiência - talvez até sem grande consciência - fiz-me à vida. Sempre gostei da minha proactividade.

Contactei um jornal local (tive de o googlar para ver se ainda existe). Estava de férias, as férias grandes (o que é isso agora?), e queria alguma coisa para me mostrar o que era este mundo do jornalismo onde até aquele jornal pequenino me parecia enorme.

Fui à redacção. Lembro-me de gostar do espaço, dos movimentos, das pessoas. Algumas televisões ligadas, muitas pilhas de papéis. O chefe de redacção (ou editor, escapa-me a memória) perguntou-me quem eu era. E agora que penso nesse dia acho que nunca teve realmente intenção de aceder ao meu pedido - o que é que eu sabia de escrever reportagens ou de fazer contactos, para me chegar a um jornal e pedir um estágio.

Combinámos que voltaria com dois textos escritos. Só me lembro de um: a missão era descrever a linha de Cascais, num passeio ao Domingo de manhã.

Nunca tive resposta àqueles artigos. Nunca soube se o meu pedido tinha sido alvo de alguma apreciação.

Já não recordo ao certo a sua cara, mas nunca esqueci o que me disse. Aconselhou-me fervorosamente a não seguir "esta vida". Tomei o conselho com alguma indignação e registei-o como o desabafo de um homem velho, cansado.

Mas ao longo destes anos ouvi repetir a mensagem, muitas vezes, e por pessoas que não são velhas na profissão nem estão cansadas. E ouvi-a tomar a forma de um conselho: tirar uma formação inicial numa área que não as da comunicação e do jornalismo. Imaginei-o sempre como uma traição àquela nobre profissão que almejava.

Hoje, reconheço razão a todos os que repetiram estas mensagens. Mas não consigo sentir arrependimento pela decisão dos 15 anos. Continuo a gostar disto, mais agora que já senti o gosto de ver um bom artigo assinado com o meu nome. Mais agora que vivi acontecimentos importantes dentro de uma redacção. Mais agora que conheci quem faz disto um modo de vida, para além de um ganha-pão.

E só lamento, na decisão dos 15 anos, a falta de oportunidades para entrar neste meio. E os jornais, revistas e rádios que fecham. E os despedimentos colectivos. E as rescisões. E os departamentos encerrados. E os salários congelados. E os estágios não remunerados.