Eu tinha uns 15 anos e uma decisão fresca. Era a altura dos testes psicotécnicos e de decidir o que havia de fazer da vida. (Aos 15 anos não podemos decidir o que fazer da vida. Mas é essa a percepção que Portugal tem do ensino superior - as licenciaturas são cursos técnicos que determinam a carreira profissional. Direito faz advogados. Filosofia faz professores.) As ciências exactas nunca me cativaram. Iria para Humanidades.
A pouco surgiu-me uma ideia, que se tornou uma paixão. Não me via a fazer nada que não fosse escrever. Surgiu-me o jornalismo.(Comunicação social faz desempregados.)
Cresceu-me a nobreza da profissão. E, sem experiência - talvez até sem grande consciência - fiz-me à vida. Sempre gostei da minha proactividade.
Contactei um jornal local (tive de o googlar para ver se ainda existe). Estava de férias, as férias grandes (o que é isso agora?), e queria alguma coisa para me mostrar o que era este mundo do jornalismo onde até aquele jornal pequenino me parecia enorme.
Fui à redacção. Lembro-me de gostar do espaço, dos movimentos, das pessoas. Algumas televisões ligadas, muitas pilhas de papéis. O chefe de redacção (ou editor, escapa-me a memória) perguntou-me quem eu era. E agora que penso nesse dia acho que nunca teve realmente intenção de aceder ao meu pedido - o que é que eu sabia de escrever reportagens ou de fazer contactos, para me chegar a um jornal e pedir um estágio.
Combinámos que voltaria com dois textos escritos. Só me lembro de um: a missão era descrever a linha de Cascais, num passeio ao Domingo de manhã.
Nunca tive resposta àqueles artigos. Nunca soube se o meu pedido tinha sido alvo de alguma apreciação.
Já não recordo ao certo a sua cara, mas nunca esqueci o que me disse. Aconselhou-me fervorosamente a não seguir "esta vida". Tomei o conselho com alguma indignação e registei-o como o desabafo de um homem velho, cansado.
Mas ao longo destes anos ouvi repetir a mensagem, muitas vezes, e por pessoas que não são velhas na profissão nem estão cansadas. E ouvi-a tomar a forma de um conselho: tirar uma formação inicial numa área que não as da comunicação e do jornalismo. Imaginei-o sempre como uma traição àquela nobre profissão que almejava.
Hoje, reconheço razão a todos os que repetiram estas mensagens. Mas não consigo sentir arrependimento pela decisão dos 15 anos. Continuo a gostar disto, mais agora que já senti o gosto de ver um bom artigo assinado com o meu nome. Mais agora que vivi acontecimentos importantes dentro de uma redacção. Mais agora que conheci quem faz disto um modo de vida, para além de um ganha-pão.
E só lamento, na decisão dos 15 anos, a falta de oportunidades para entrar neste meio. E os jornais, revistas e rádios que fecham. E os despedimentos colectivos. E as rescisões. E os departamentos encerrados. E os salários congelados. E os estágios não remunerados.