27 outubro 2011

Eternamente

"E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas do céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos e até teias de aranha suspensas do tecto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, contemplámo-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente

Heathcleaff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo.Como explicar-te que tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penélope alguma desfará de noite a teia que te teceste.
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e as buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu. E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.

Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos, acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.

E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo poderia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares, Não te Deixarei Morrer David Crockett

18 outubro 2011

Little things

Há uns dias, na viagem Lisboa-Cascais, vi um homem dar um uso interessante ao bilhete do comboio.

Passou uns minutos a brincar com o papel. Antes de sair na sua estação, entalou na dobra do banco um pássaro, feito em origami.

Não sei porquê, aquilo tocou-me de uma maneira especial. Talvez por me ter imaginado a chegar nesse instante àquele banco e a encontrar aquele papel - sem saber que mãos o tinham trabalhado, mas indubitavelmente com a presença de alguém. Como se recebesse uma mensagem enviada por um estranho.

Entretanto andei a navegar pela Wikipédia e encontrei a história de Sadako Sasaki, uma menina japonesa vítima de Hiroshima aos dois anos. Sadako ouviu uma lenda japonesa segundo a qual quem fizer 1000 garças em origami teria um desejo. Internada no hospital, Sadako fez 646 garças antes de morrer. O seu desejo era a cura.

Bonito, hein?

03 outubro 2011

Sou pela realidade.

"- Bem sabes que quando sou bruto e directo tenho razões para isso. Não te quero inferiorizar, nem gozar à tua custa. Mas gostava realmente de ouvir as tuas respostas precisas a certas coisas. O que é mais importante, a paz e a alegria ou o conhecimento? Se o facto de saberes menos te fizesse um homem feliz, o que é que escolhias? (...)


Sou pela realidade. Mais e mais realidade. Se quiseres, sou um fanático da realidade. E o que é a astrologia? O que tem ela que ver com a realidade? Alguma  coisa, com certeza. Da mesma maneira que a astrologia, a biologia, as matemáticas, a música, a literatura; e também as vacas que pastam nos campos e as flores, as ervas daninhas e o adubo que lhes dá vida. Segundo certos aspectos, há coisas que parecem mais importantes que outras. Diz-se que umas coisas têm valor e outras não. Tudo tem valor e é importante."

Um diabo no paraíso, Henry Miller