O bolso do meu casaco
Por Ricardo J. Rodrigues
"[A Sixto Rodriguez, mestre da guitarra e da arte do desprendimento]
Rapei o cabelo há dias. Pensava que estava a ficar calvo e decidi tomar ações radicais, melhor assumir-me careca de vez. Só que, ao submeter todo o crânio à passagem de um pente dois, percebi que afinal não tinha assim tantas falhas ou entradas. É agradável um tipo pensar que as coisas são piores do que são e depois deixar-se surpreender pela positiva. Podia lamentar o cabelo perdido, mas também aprecio a ideia de já não ter de gastar dinheiro em cera. Além de que é extremamente difícil andar bem despenteado todos os dias.
Sempre que vou viajar, e sobretudo se estou ansioso com a viagem, faço um esforço por baixar as expetativas. Há uns anos fiz o Transiberiano, dez mil quilómetros ferroviários entre Moscovo e Vladivostok, com uma incursão pela Mongólia. Quando entrei no comboio tinha a certeza de que aquela seria uma viagem épica, algo que me transformaria para sempre. Nada mais errado. É uma chatice passar um mês dentro de um comboio e é uma chatice ainda maior aturar a polícia russa, demasiado ciente da sua autoridade. Claro que conto o Transiberiano como uma grande experiência de vida, mas lembro-me do alívio que senti quando a viagem terminou – e sei que não a repetiria.
Isto eu aprendi: a ansiedade estraga-nos o esquema todo. Quando construímos uma narrativa e tentamos encaixar nela os pedaços de realidade que nos dão jeito, desfocamos a atenção das coisas essenciais. Acontece com o jornalismo, com as viagens e com os cortes de cabelo. E acontece com as relações. Porra, acontece muito com as relações.
Os maiores amores da minha vida nasceram sempre quando menos os esperava e morreram sempre por causa da ansiedade. É trabalho para uma vida inteira, aprender a deixar uma relação fluir. Mas acredito que aquilo que devemos colocar alto é a fasquia da relação que queremos, não a expetativa do que queremos que a relação seja. E, quando conseguimos fazê-lo, é como se vestíssemos um casaco que não usamos há muitos meses e encontrássemos uma nota de vinte paus no bolso. Mas melhor."
É tudo uma questão de expectativas.
Rapei o cabelo há dias. Pensava que estava a ficar calvo e decidi tomar ações radicais, melhor assumir-me careca de vez. Só que, ao submeter todo o crânio à passagem de um pente dois, percebi que afinal não tinha assim tantas falhas ou entradas. É agradável um tipo pensar que as coisas são piores do que são e depois deixar-se surpreender pela positiva. Podia lamentar o cabelo perdido, mas também aprecio a ideia de já não ter de gastar dinheiro em cera. Além de que é extremamente difícil andar bem despenteado todos os dias.
Sempre que vou viajar, e sobretudo se estou ansioso com a viagem, faço um esforço por baixar as expetativas. Há uns anos fiz o Transiberiano, dez mil quilómetros ferroviários entre Moscovo e Vladivostok, com uma incursão pela Mongólia. Quando entrei no comboio tinha a certeza de que aquela seria uma viagem épica, algo que me transformaria para sempre. Nada mais errado. É uma chatice passar um mês dentro de um comboio e é uma chatice ainda maior aturar a polícia russa, demasiado ciente da sua autoridade. Claro que conto o Transiberiano como uma grande experiência de vida, mas lembro-me do alívio que senti quando a viagem terminou – e sei que não a repetiria.
Isto eu aprendi: a ansiedade estraga-nos o esquema todo. Quando construímos uma narrativa e tentamos encaixar nela os pedaços de realidade que nos dão jeito, desfocamos a atenção das coisas essenciais. Acontece com o jornalismo, com as viagens e com os cortes de cabelo. E acontece com as relações. Porra, acontece muito com as relações.
Os maiores amores da minha vida nasceram sempre quando menos os esperava e morreram sempre por causa da ansiedade. É trabalho para uma vida inteira, aprender a deixar uma relação fluir. Mas acredito que aquilo que devemos colocar alto é a fasquia da relação que queremos, não a expetativa do que queremos que a relação seja. E, quando conseguimos fazê-lo, é como se vestíssemos um casaco que não usamos há muitos meses e encontrássemos uma nota de vinte paus no bolso. Mas melhor."
É tudo uma questão de expectativas.
