Seja como for, aquilo que é verdadeiramente marcante - e que justifica a selecção da descoberta da perspectiva como um dos factos do milénio - é que esta invenção não corresponde a uma simples representação do campo visual, mas a uma verdadeira atitude filosófica perante a vida. Ou seja: a perspectiva não é apenas um modo de representação do real, mas uma abordagem em perspectiva do real. E isto é extrapolável para todos os domínios do conhecimento e da sua representação - a arquitectura, a antropologia, a economia - e para todas as abordagens filosóficas perante a vida. Quando, por exemplo, Bergson caracterizava a felicidade apenas como «a ausência de sofrimento», ele utilizava uma noção de perspectiva ou, se quiserem, de profundidade perante a vida: hoje sou feliz, mas amanhã posso não ser e para o ano posso ser outra vez. Nada é eterno nem adquirido, tudo é fugaz e passageiro. A ilusão - seja a de felicidade ou a de tristeza - é acreditar num horizonte fechado, ao alcance da vista, que ignora ou finge ignorar os horizontes sucessivos que estão para além do imediato.
Estação 2000: Perspectiva in Não te deixarei morrer, David Crockett

