Um bom primeiro-ministro resolve crises. Um grande primeiro-ministro transforma-as em oportunidades. O desespero português é maior: temos um primeiro-ministro que nem resolve crises, nem as transforma em oportunidades para o futuro. José Sócrates ilude as crises. Finge que não existem.
Realmente, de cada vez que vejo o primeiro-ministro a falar dos números do país - ora que afinal até houve crescimento, ora que o défice nem é assim tão mau, ora que Portugal está acima das médias europeias - tenho a sensação de que algo não está certo. Até porque depois outras entidades revelam dados que contradizem as informações oficiais. Pergunto-me se ainda há alguém que acredite nele. O artigo, O Comboio de Sócrates, continua:
O primeiro troço do TGV foi suspenso pelo Governo, devido à crise. Mas pode regressar a qualquer momento, como fantasma. O Governo ainda acredita no Pai Natal. Porque se duvida que nos próximos tempos haja dinheiro para comprar sequer sulipas de madeira para colocar nos carris. Mas o Executivo não acha isso, e o resto da linha do TGV continua a avançar a todo o vapor. Espantoso! O Governo entrou em órbita e não sabe como regressar à Terra.
E eu, francamente, continuo sem perceber porque é que se vai avançar com um troço do TGV que seja, num momento em que é preciso passar a cobrar o preço de medicamentos a pessoas que não podem pagá-los mas precisam deles. Se é preciso ir buscar receitas mexendo em assuntos delicados como o sistema de saúde (já precário em algumas situações), talvez fosse mais sensato não avançar com uma obra que vai deixar o país endividado agora e durante muito tempo.
Toda a realidade lhe é indiferente. A crise económica, a crescente dívida pública, o atrofiante desemprego são, para Sócrates, uma maçada. Não tem interesse em saber o que se passa no mundo, e é por isso que pensa que o TGV chegará a andar um dia destes.
Aqui parece-me que Sócrates até tem interesse em ver o que se passa por aí, mas faz uma leitura tão desajustada da realidade que continua a defender estes projectos megalómanos.
Ainda que sejam cenários diferentes, um dia acontece-nos o mesmo que à Grécia, que se deparou com uma realidade que os seus governantes andaram a varrer para debaixo do tapete. E entra-nos pela porta o Fundo Monetário Internacional para pôr ordem na casa (seria bom? Seria mau?)
